20 de outubro de 2017

'Até agora o bullying não foi levado a sério', dizem especialistas

'1 OGlobo by Paula Ferreira  /  

— A suspeita de que o autor dos disparos que deixaram pelo menos dois mortos em uma escola em Goiânia seja alvo de bullying pelos colegas reascendeu a discussão sobre o tema. No Brasil, segundo dados do Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (Pisa, na sigla em inglês) divulgados em abril deste ano, 17,5% dos alunos brasileiros, na faixa dos 15 anos, que participaram da última edição do exame são alvo de algum tipo de bullying pelo menos algumas vezes no mês. Mas, embora o número seja alto, especialistas destacam a questão ainda é relegada a segundo plano tanto pelas escolas, quanto pelo poder público.
As médias de bullying nas escolas brasileiras são ligeiramente inferiores à registrada nos países membros da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), que realiza o Pisa, onde 18,7% dos estudantes relataram sofrer com as agressões.
— Nessa situação falharam os pais e falhou a escola e quem vai pagar são as vítimas, e menino que fez os disparos, que também vai peder a vida. Alguém falhou com ele. Enquanto estivermos fazendo apenas campanhas de "diga não ao bullying", e as políticas públicas não pensarem de fato em projetos sistematizados a partir de investigações e não de senso comum, continuaremos vendo casos assim- criticou a pesquisadora da Unesp Luciene Tognetta, coordenadora do Grupo de Estudos e Pesquisas em Educação Moral (Gepem). — Não temos incentivos a políticas públicas sobre o tema, porque também não temos incentivo a pesquisas na área de ciências humanas no Brasil. É necessário deixar claro que, infelizmente, nesse país temos um atraso terrível em pensar questões de convivência na escola.
Luciene é uma das coordenadoras de um programa de combate ao bullying presente em 11 escolas públicas e particulares no estado de São Paulo. No projeto, desenvolvido pelo Gepem, pesquisadores da Unesp e da Unicamp treinam alunos dessas instituições para atuarem ativamente contra esse tipo de comportamento, formando as chamadas "Equipes de ajuda". Os estudantes aprendem como identificar vítimas e agressores, e são instruídos a mediar os conflitos entre eles. A experiência na área, de acordo com Luciene, evidencia outro problema recorrente: a falta de formação dos professores para lidar com os casos.
— Qual o plano mais eficaz para que o bullying não aconteça? O jeito é que os alunos possam ser protagonistas e intervir, mas para isso preciso de professores formados que entendam essa necessidade e informem seus alunos. O bullying é um problema de convivência entre pares que não só muitos professores ignoram, porque estão preocupados com o conteúdo que vai cair no vestibular, como desconhecem, porque nunca tiveram formação sobre isso.
A educadora Andrea Ramal defende que o tema seja colocado no centro do debate educacional e não seja apenas visto como um tópico secundário.
— Até agora o bullying não foi levado a sério. Ele é trabalhado de uma maneira muito isolada nas escolas. Às vezes há um projeto que promove empatia, mas na maior parte das vezes, as escolas ainda fazem vista grossa, não chamam as famílias para conversar. Quando há um caso desse, as pessoas acordam para o problema, os pais falam com os filhos, as escolas fazem projetos, mas depois de um tempo tudo acaba esquecido.
Os dados do Pisa detalham ainda os tipos de bullying sofridos. De acordo com a estatística, 9,3% do brasileiros relataram que já foram alvo de zombarias dos colegas algumas vezes por mês. Entre os países da OCDE a taxa é de 10,9%. Outros 3,2% afirmam que já sofreram alguma agressão física na mesma frequência. A média da OCDE foi 4,3%. Os especialistas orienta que os país devem estar atentos ao comportamento dos filhos para identificar tanto se ele sofre, ou se pratica o bullying com colegas e solucionar o problema o quanto antes.
— Os meninos que fazem bullying são crianças que têm comportamento agressivo, podem até ser ex-vitimas, e, geralmente, têm pais que reforçam esse comportamento, porque acham legal que o filho comande a turma. Se o filho tem um temperamento forte, se quer fazer que a brincadeiras somente do jeito dele pode ser um indício. Quem é a vítima? um jovem pouco assertivo, que tem comportamento passivo, que não reage quando é incomodado. Pode não querer ir à escola e apresentar queda no rendimento escolar— afirma o psiquiatra infantil Fábio Barbirato, que atendeu algumas vítimas do massacre de Realengo, quando um jovem invandiu uma escola na Zona Oeste do Rio e matou 12 crianças.
CONSEQUÊNCIAS PRECISAM SER TRATADAS
A avaliação internacional também mostrou o impacto das agressões sobre as notas. No caso do Brasil, os estudantes de escolas onde há alta prevalência de bullying tendem a registrar 20 pontos a menos na prova de ciências do Pisa em comparação com unidades onde o nível de agressão é baixo.
Após o trauma, o psiquiatra alerta que a partir de agora é importante cuidar das sequelas tanto das vítimas do atentado em Goiânia, quanto do menino que efetuou os disparos.
— A reação ao bullying depende de cada indivíduo, alguns desenvolvem um quadro depressivo, outros um quadro de irritabilidade que culmina em um tiro. O que aconteceu hoje não é diferente do que aconteceu em Columbine. Não é uma perversidade, maldade, porque quando é perverso, você faz para não ser pego. Foi uma conduta inadequada, impusliva, de alguém que, de alguma forma, estava sob uma panela de pressão que explodiu e não teve apoio e suporte de todos os meios envolvidos. São sequelas que precisam ser trabalhadas nas vítimas e no autor.

Bullying e contaminação do ambiente escolar pela violência


No espaço escolar, quando não ocorre uma efetiva intervenção contra o bullying, o ambiente fica contaminado para violência explicita ou velada nas redes sociais

Ana Paula Siqueira Lazzareschi de Mesquita*
20 Outubro 2017 | 16h33
Um estudante de 14 anos disparou tiros contra os colegas, no dia de hoje, dentro do Colégio Goyases, escola particular de ensino infantil e fundamental, em Goiânia. De acordo com o Corpo de Bombeiros e Polícia Militar, dois estudantes morreram e outros quatro ficaram feridos na unidade, localizada no Conjunto Riviera, bairro de classe média. As informações preliminares colhidas pela Policia Militar apontam que se tratou de mais um caso de bullying, no qual o atirador não suportou as ofensas dos demais alunos e, utilizando-se da arma dos pais, disparou tiros de forma indiscriminada.
Desde 2014, momento em que foi lançado o programa “Proteja-se dos prejuízos do cyberbullying”, tenho alertado – de forma constante e ininterrupta – professores, alunos e pais sobre a gravidade do bullying no Brasil e o menosprezo da situação pelas autoridades públicas e determinados administradores escolares.
Crianças e adolescentes são constantemente violentados pelos seus pares nas redes sociais e nos pátios dos colégios, pois ainda existem 2 pensamentos equivocados sobre a intimidação sistemática, que são repetidos como mantras da ignorância comportamental:
Bullying é brincadeira de criança – isso passa; e, na minha época, não existia bullying – tudo se resolvia na porrada

O caso de hoje nos mostra exatamente o oposto e nos leva a alguns pontos de reflexão.
Nos termos da lei nº 13.185/15, considera-se como bullying todo ato de violência física ou psicológica, intencional e repetitivo que ocorre sem motivação evidente, praticado por indivíduo ou grupo, contra uma ou mais pessoas, com o objetivo de intimidá-la ou agredi-la, causando dor e angústia à vítima, em uma relação de desequilíbrio de poder entre as partes envolvidas.
Todas as instituições de ensino, clubes e agremiações recreativas têm o dever legal de instituir um Programa de Combate a Intimidação Sistemática (bullying) de acordo com a Lei 13.185/15. A vigência da lei iniciou em fevereiro de 2016 e o texto da norma é claro – a implementação do programa não é uma faculdade do gestor, é uma exigência imperativa-normativa.
Para que o programa de combate ao bullying seja realmente eficaz é essencial a abordagem do tema relacionado com à lei brasileira, interligado com o método pedagógico de ensino. Afinal, quando um caso grave de cyberbullying ocorre, o primeiro a ser acionado é o advogado, em virtude dos crimes cometidos entre os envolvidos (em especial o agressor e o administrador escolar).
A falta de implementação do programa de combate ao bullying e inadequação dos estabelecimentos de ensino à Lei 13.185/15, ocasionam de forma inevitável a falta de diagnose e prevenção aos casos de bullying. Quando o programa de combate ao bullying é implementado de forma correta, nos termos do artigo 4º da lei, a comunidade escolar estará envolvida com a problemática da intimidação sistemática e terá formas de coibir e auxiliar as vítimas e os agressores deste terrível evento.
O bullying só acontece em virtude da existência de três partes envolvidas, sendo elas: a vítima, o (os) agressor (res) e a plateia. Os alunos que convivem com a violência sistemática geralmente silenciam em razão medo de se tornar a “próxima vítima”, ou de ser chamado de “dedo duro”. No espaço escolar, quando não ocorre uma efetiva intervenção contra o bullying, o ambiente fica contaminado para violência explicita ou velada nas redes sociais; desta forma, todos, sem exceção, são afetados negativamente, experimentando sentimentos de terror e ansiedade. Quando a vítima é encurralada, o alvo da fúria é incerto, pois aquele que sofreu as humilhações e a exclusão social extravasa sua “sede de justiça” contra aqueles que estão na sua frente.
Para evitar que qualquer um faça “justiça com as próprias mãos” – crime previsto no artigo 345 do Código Penal, sem prejuízo da apuração dos demais atos ilícitos que envolvem a vingança particular (homicídio, lesão corporal, ameaça, injúria, calúnia, difamação etc.), é necessário e urgente que as autoridades públicas tenham consciência de que o bullying é um fenômeno a ser tratado de forma interdisciplinar, tendo em vista que envolverá os Ministérios da Educação, Saúde, Justiça e Segurança, Ciência e Tecnologia e Planejamento.
O bullying inevitavelmente repercute na ordem jurídica, sendo que o envolvimento de menores em episódios de agressão presencial e virtual abarrotam as varas judiciais com pedidos de reparação de danos morais e materiais, em valores expressivos em virtude da ausência de instrução jurídica dos envolvidos no problema (pais, alunos e educadores), que desconhecem as responsabilidades que lhe são atribuídas por lei e tentam, muitas vezes, “remediar” conflitos sem a assistência profissional especifica, atuando de forma displicente e inepta frente ao conflito.
O crescente números de casos de bullying exige da sociedade civil uma atuação específica e em conjunto com o Poder Judiciário, membros do Ministério Público, conselhos tutelares, União, Estados, municípios e suas respectivas secretarias para que as efetivas medidas protetivas sejam adotadas o mais rapidamente possível.
*Ana Paula Siqueira Lazzareschi de Mesquita, advogada e coordenadora do programa “Proteja-se dos prejuízos do cyberbullying”

Educação e eleições formando cidadãos competentes para o século 21


Adriano Vizoni - 27.ago.2015/Folhapress
MUNIZ FREIRE - ES - BRASIL, 27-08-2015, 16h20: GESTAO ESCOLAR. Escola Estadual de Ensino Medio Maria Candido Kneipp, escola publica na zona rural do interior do Espirito Santo que teve a melhor avaliacao segundo o ENEM. (Foto: Adriano Vizoni/Folhapress, ESPECIAIS) ***EXCLUSIVO FSP***
Sala de aula em escola do Espírito Santo
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Estudo divulgado nesta semana pelo Instituto Ayrton Senna mostra que um em cada quatro jovens de 15 a 17 anos vai abandonar a escola antes do fim do ano.
Alguns voltarão a se matricular, mas cerca de 15% dos jovens dessa faixa etária não retornam. Houve uma estagnação no número de matrículas dos jovens de 15 a 16 anos e mesmo um crescimento dos de 17 que estão fora da escola nos últimos 15 anos.
Claramente, andamos para trás. As consequências dessa situação são visíveis: num mundo em que a composição do emprego mudou de forma importante, com automação de atividades rotineiras e fechamento de postos de trabalho, a falta de acesso a níveis mais elevados de educação vaticina um futuro muito ruim para esses adolescentes e não nos permite antever a retomada do crescimento da produtividade do país, há anos estagnada.
Por que esses jovens abandonam a escola? Os motivos são diversos, como casamento precoce e dificuldades financeiras, mas certamente o desinteresse pelo que é ensinado é fator importante. Se sinto que não estou aprendendo, num ensino médio que tenta comprimir cerca de 13 disciplinas em quatro horas diárias de aula, com salas lotadas, tendo a buscar alternativas mais interessantes.
Algo precisa ser feito com urgência, pois, no ritmo atual, alerta o estudo liderado por Ricardo Paes de Barros, levaremos 200 anos para atingir a meta prevista no Plano Nacional de Educação para o fim de 2016 de colocar todos os jovens de 15 a 17 anos na escola. Afinal, num país cada vez mais desesperançado, a educação deveria ser o eixo de reconstrução nacional e o ponto de convergência dos esforços para transformar a realidade.
As eleições de 2018 colocam uma oportunidade de nos organizarmos para isso. Sem educação de qualidade para todos —o que não quer dizer não só acesso ao ensino médio e melhoria das taxas de conclusão, hoje ainda na ordem de 59% para jovens de 19 anos, como melhorias na profissão de professor e em sua formação na universidade—, não haverá cidadania consciente, crescimento sustentável e fim da violência.
Em diferentes espaços, organizações da sociedade civil têm se articulado para propor as mudanças necessárias à reconstrução do Brasil. Jovens lançam movimentos suprapartidários para participar do processo com regras pactuadas entre eles sobre ética e busca de justiça social na política. As primeiras candidaturas começam a aparecer, mas falta um eixo, um ponto a partir do qual todo o resto se constrói.
Que uma educação de qualidade para todos, que prepare o Brasil para o século 21, seja o centro das novas reflexões e propostas. 

Professores pedem atuação de psicólogos e assistentes sociais nas escolas



Correio do Estado, 19/10/2017



Professores da Rede Municipal de Ensino de Campo Grande cobraram a atuação urgente de assistentes sociais e psicológos nas escolas como forme de evitar suícidio entre os jovens. Clamor foi feito ontem, durante a o "1º Fórum de Discussão de Combate ao Suicídio - Falar é a melhor solução", realizado na Câmara Municipal.
Fórum discutriu sobre a prevenção e combate ao suicídio,com objetivo de desenvolver políticas públicas de atendimento ao cidadão.
“A situação é muito grave e séria. Convivemos diariamente com relatos de alunos em situação de vulnerabilidade social. São alunos que apresentam quadros pré depressivos e até de depressão, inclusive com mutilações. Crianças e adolescentes em situações de potencial suicídio. Nós, como professores, não temos condições de atender essa demanda que se instalou nas escolas e hoje é uma verdadeira epidemia no país. Precisamos da atuação de profissionais preparados para identificar esses quadros, fazerem um tratamento adequado e um encaminhamento oportuno. Sozinhos não vamos conseguir!”, disse uma das professoras, que preferiu não ser identificada.
Médico psiquiatra Juberty Antônio de Souza concordou com a professora e afirmou que é necessária uma campanha especificamente contra o suicídio, tanto nas escolas, como em locais de trabalhos e em casa. O médico afirmou ainda que, apesar da maior concentração de casos estar entre adolescentes e adultos jovens, existem muitos casos de depressão entre os professores.
“É uma das profissões mais sobrecarregadas no momento e é preciso estar bem para atender alguém. É preciso uma atuação multidisciplinar nas escolas, com envolvimento de assistentes, psicólogos e a saúde pública. Devemos trabalhar com prevenção e tratamento aos casos identificados”, ressaltou Juberty.
Vereador Carlão (PSB) afirmou que levará a questão para o prefeito Marcos Trad (PSD) e cobrará execução das Leis 5.613/15 e 5.192/13, que dispõe sobre a obrigatoriedade da atuação do assistente social nas escolas e Centros de Educação Infantil (Ceinfs) de Campo Grande.
POLÍTICAS PÚBLICAS
Conforme dados do Ministério da Saúde, em média, 11 mil pessoas cometem suicídio por ano no Brasil. Mato Grosso do Sul aparece em quarto lugar no ranking de mortes por suícidio, segundo o Mapa da Violência.
Dados apresentados pela Secretaria Municipal de Saúde (Sesau) durante o fórum apontam que, somente em Campo Grande, foram registrados 331 suícios de 2010 a 2016 e 851 tentativas apenas no ano passado, principalmente entre os jovens, o que causa preocupação no poder público.
Vereador Carlão afirmou que campanha de conscientização, como o Setembro Amarelo, não tem dado resultado.
“Tem que ter políticas públicas mais firmes, mais consistentes. O Poder Público não pode trabalhar só com campanhas e através de Caps [Centro de Atenção Psicossocial]. Precisa enfrentar isso de frente, sabendo que é um problema que está crescente”, disse o vereador.
Já a vereadora Enfermeira Cida (PTN) ressaltou que é importante discutir o suicídio e conscientizar sobre a depressão. Conforme Juberty, 90% das pessoas depressivam tiram a própria vida.
“A gente precisa ir pras escolas, fazer palestras, precisamos levar a depressão a sério. O índice de suicídio é atribuído a depressão, que nem sempre as pessoas acreditam que é uma doença real”, declarou.


Advogada Laura Cândia, que já tentou o suícidio por duas vezes, afirmou que há necessidade de valorizar a família como forma de prevenção.
“O caminho para tudo iso tem que ser atraves do dialogo, da reestruturação da família, de resgatar a família, porque a família hoje esta desintegrada e não educa mais seu jovem, ele é jogado para a escola educar ele. Não tem mais aquele amor, aquela união em casa. Não tem mais conselhos e conversa. Quando se chega em casa cada um procura seu espaço e fica isolado. Então falta o dialogo”, pontuou.

Cartoons on Addiction to Technology by larrycuban

The following collection of cartoons on technology addiction come from a blog post at Examined Existence. I selected the ones that had not appeared on posts that I had published on the same topic. Enjoy!


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larrycuban | October 20, 2017

19 de outubro de 2017

Professores que estão combatendo a violência nas escolas públicas

Revista Claudia, 19/10/17
(no olvidar en ningún momento las violencias sufridas popr los alumnos!)

Tinha tudo para ser mais um dia difícil na conturbada rotina da Escola Municipal de Ensino Fundamental Professora Pequenina Calixto, em Paraty, no litoral do Rio de Janeiro. E foi. A professora de artes Carlota Galvão, 46 anos, orientava uma turma do 6º ano quando percebeu que um dos garotos filmava as meninas com o celular. Carlota pediu o aparelho, mas o jovem não entregou. “Se você me der o telefone agora, eu o devolvo ao final da aula. Do contrário, vou recolher e só entrego a algum responsável por você”, disse com firmeza.
(Daniella Paoliello/Gabriel Marques/CLAUDIA)
O impasse estava criado. Na negativa do aluno ao pedido, ela teria de tomar uma atitude mais dura contra um menino que, apesar de ter apenas 13 anos, atuava para a quadrilha que controla o tráfico de drogas na região. Os colegas em volta passaram a ameaçar Carlota.
“Somos irmãos dos que cortaram a cabeça e vamos te pegar lá fora”, disseram. Faziam referência a um crime ocorrido na semana anterior, numa favela próxima. William de Azevedo, 30 anos, fora decapitado porque teria beijado a namorada do chefe de uma quadrilha. A cabeça acabou exibida como troféu pelas ruas e usada como bola de futebol.
Carlota argumentou que aquilo seria tolice. Estava ali para ajudá-los a construir uma vida melhor e esperava que eles aproveitassem a chance. Um dos meninos começou a defendê-la e, finalmente, o que iniciara o conflito entregou o celular.
No embate, a educadora se manteve calma. Mas, assim que o sinal tocou, ela desabou na sala dos professores. “Eu não tenho estrutura para isso’’, desabafou aos prantos a professora que tem 18 anos dedicados ao magistério. “Vivemos com medo, sob ameaça o tempo todo.”
O episódio aconteceu em março, na maior escola municipal de Paraty. Mas poderia ter sido em qualquer outra cidade. Diariamente, milhares de educadores passam por situações semelhantes. E muitas terminam de forma trágica, com sangue, como aconteceu com Márcia Friggi, na catarinense Indaial, no dia 21 de agosto.
Após retirar da sala um estudante de 15 anos que a havia desrespeitado, foi atacada a socos e pontapés e jogada contra a parede. Publicada no Facebook, a foto do rosto ferido da educadora despertou o Brasil para uma realidade estarrecedora.
A Prova Brasil, aplicada pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), mostra que, em 2015, o quadro era sombrio: 4 714 professores declararam ter sofrido algum tipo de atentado à vida, 22 692 foram ameaçados por estudantes e 132 244 (ou 51% dos entrevistados) presenciaram agressões físicas ou verbais entre alunos.
A invasão do ambiente escolar pela violência se revela também nos relatos de docentes que viram, em suas turmas, jovens embriagados (13 015 relatos), sob efeito de drogas ilícitas (29 737) e armados (12 078 com armas brancas e 2 365 portando armas de fogo).
Em setembro, o jornal Folha de S.Paulo publicou um levantamento baseado em 178 boletins de ocorrência registrados por educadores no primeiro semestre deste ano. Ele mostrou que o estado de São Paulo tem uma média diária de dois professores agredidos em sala de aula. Em ao menos um em cada quatro casos, o aluno é apontado como o agressor.
Mais do que um número do Inep, a situação da mestra de Paraty é o retrato da vida real. E os problemas na Pequenina Calixto refletem uma cidade que, apesar de ter só 40 mil habitantes, está entre as 50 mais violentas do Brasil, com índice de homicídios de 60,9 para cada 100 mil habitantes, conforme dados do Mapa da Violência de 2016.
Se não bastasse estar instalada numa zona conflagrada pelo crime, essa escola viu, no início do ano, o quadro de pessoal reduzir-se em 50%, pois a prefeitura demitiu os servidores não concursados. Alunos sem aulas por falta de professores vagavam pelos pátios sem inspetores. Tornaram-se comuns as agressões entre estudantes, o recrutamento forçado de jovens pelo tráfico e as ameaças a docentes e funcionários. Carlota procurou ajuda.
Pedagogia da emergência
Convidada por uma colega, ela se uniu a um grupo de educadores formado pela Escola Comunitária Cirandas, projeto sem fins lucrativos que se dedica à melhoria da educação em Paraty. Lá, ela foi apresentada à pedagogia da emergência, abordagem baseada na antroposofia e na pedagogia Waldorf que trabalha com o resgate emocional de jovens expostos a situações de risco. “No início, eu ouvia o que os formadores ensinavam e achava tudo muito fofo”, brinca.
“Não acreditava que aquilo pudesse funcionar na minha turma.” Até que ela decidiu pôr em prática o que estava aprendendo. Carlota via potencial em um menino de 15 anos que cursa o 6º ano. O jovem, porém, tumultuava o ambiente e se valia do fato de pertencer às gangues para escapar de punições. “Os formadores me orientaram a transformá-lo em líder”, explica. “Ele precisava chamar a atenção. Assim que conseguiu, tudo mudou. Participava das aulas e parou com as ameaças.”
No dia 22 de agosto, o trabalho iniciado pela professora foi afetado por uma mudança radical na rotina. Com problemas estruturais no telhado, a Pequenina Calixto foi interditada pela Defesa Civil. Redistribuídos entre outras quatro escolas do município, muitos estudantes deixaram as aulas. “Um menino envolvido com uma gangue não pode aparecer em região dominada por grupos rivais.
A evasão cresceu muito.” Ela leciona agora em três endereços. As turmas, que eram de 30 estudantes, minguaram para oito ou dez. Ou seja, quando a escola voltar a funcionar, a professora terá que recomeçar o esforço.
A abordagem tem na prevenção uma das medidas de contenção. Segundo a pedagoga Telma Vinha, doutora em psicologia, desenvolvimento humano e educação pela Faculdade de Educação da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), a situação se agrava quando se tenta impor algo que o aluno considera arbitrário. “A agressão ocorre quando o jovem é mandado para fora da sala. É possível evitar que a situação chegue a esse ponto.” Telma lista quatro passos importantes para a prevenção:
• Mudança no planejamento para a aula fazer sentido para o jovem. “O comportamento de ruptura acontece quando há desinteresse”, explica. “Se a aula leva em conta a realidade dele e é interessante, o aluno participa e causa menos problemas.”
• Criação de alternativas positivas à violência – a única forma de se manifestar que ele conhece. O protagonismo e a liderança, aprendidos em peças de teatro ou em debates, ensinam a substituir a agressividade por outras formas de expressão.
• Desenvolvimento de habilidades sociais e emocionais para ensinar a ser justo, 
a respeitar e a ser respeitado. “O jovem precisa saber identificar, regular e expressar suas emoções de forma a não magoar os outros”, diz Telma. “É legítimo sentir raiva, o que não pode é tocar o outro.”
• Discutir com o grupo questões de convivência e elaborar regras diante de cada dificuldade. “Em assembleias quinzenais, por exemplo, pode-se discutir crises, combinar regras e avaliar como elas estão funcionando”, sugere.
Essas técnicas preventivas fazem parte da rotina de Joaquim Araújo, 40 anos, que há 20 dá aulas de artes em Fortaleza. Responsável por uma turma de ensino médio na Escola Estadual de ensino Fundamental e Médio Jocie Caminha de Menezes, Joaquim usa a mediação diariamente. “O conflito, em si, não é ruim, porque nos ensina a lidar com a adversidade”, explica Joaquim.
(Daniella Paoliello/Gabriel Marques/CLAUDIA)
“Nós precisamos saber trabalhar isso para evitar que o caso termine em agressões.” Sempre que um problema surge, o professor para a aula e estabelece um fórum. Sentados em roda – formato que ele adota como padrão nas aulas –, começam o debate. Quem assistiu à briga narra o que viu. “Enquanto esfriam os ânimos, as partes envolvidas, sejam dois jovens ou o estudante e o professor, veem como os outros perceberam a atuação deles”, conta Joaquim.
Em seguida, os que não agiram bem têm a oportunidade de explicar seus pontos de vista. “Eles notam os exageros que cometeram ao ouvir os demais.” Segue, então, o momento das reparações, em que as partes se desculpam, sem que ninguém seja exposto a humilhação. E estabelecem-se acordos para evitar a repetição do problema.
Graças a esse modelo, Joaquim não precisa lidar mais com ataques. “Não é um mar de rosas. Às vezes os meninos chegam de cabeça quente porque a situação do entorno é difícil”, diz. A Jocie fica na região do bairro Bom Jardim, o mais truculento de Fortaleza – a capital mais violenta do Brasil, segundo o Atlas da Violência divulgado este ano pelo Instituto de Pesquisas Econômicas Aplicadas (Ipea), com taxa de 78,1 homicídios para cada 100 mil habitantes. “Não podemos fechar os olhos para essa realidade.
Os jovens precisam sentir que nos preocupamos com eles e queremos ajudá-los”, afirma. Além da mediação, Joaquim planeja as aulas em conjunto com a turma para integrar a vida deles ao currículo. Para isso, recorre às técnicas do Teatro do Oprimido, desenvolvido pelo teatrólogo Augusto Boal (morto em 2009). Episódios do cotidiano da comunidade são interpretados. “Eles sentem as diferentes emoções envolvidas em um fato, aprendem a analisar pontos de vista diversos, enriquecem a capacidade de sentir e de olhar para o outro.”
A experiência de Joaquim começou a ganhar adeptos. Outros docentes passaram a adotar a prática da mediação com apoio da direção da escola. Para quebrar o paradigma da linguagem violenta, as salas de aulas foram batizadas com palavras que expressam gentileza. “Temos a sala do amor, a da afetividade”, conta. “É um processo lento, muitos colegas ainda resistem, mas os gestores estão abertos à mudança.”
Não é caso de polícia
Telma Vinha discorda das abordagens que tentam transferir a responsabilidade para a esfera da Segurança Pública. Solucionar a questão, Telma insiste, é papel da escola. “Não adianta instalar câmeras, detectores de metal, aumentar o policiamento”, afirma.
“Enquanto a escola não mudar institucionalmente, não vai funcionar bem.” Para a especialista, as transformações na sociedade tornaram as relações mais horizontais e diminuíram o poder da autoridade.
A escola, porém, continua brigando por tudo: a hora de chegar, a hora de ir ao banheiro, a cor da meia que está diferente do uniforme. “Isso desgasta a autoridade, e o aluno perde o respeito por tudo, inclusive pelas regras que realmente importam”, defende Telma.
O docente, porém, não está preparado, não recebe formação nem respaldo para lidar com o conflito. “Ele fica preso a procedimentos antigos, como mandar para a sala da coordenação, suspender, expulsar”, diz Telma.
“Sem preparo, o professor acaba adoecendo.” Um levantamento da Secretaria Estadual de Educação de São Paulo – maior rede do país, com 220 mil docentes – revelou que 136 mil afastamentos em 2015 por questões de saúde foram concedidos – 27,8% das licenças ocorreram por transtornos mentais, stress e depressão.
A vida é comunitária
Na periferia de Belo Horizonte, a Escola Municipal de Ensino Fundamental Anne Frank envolve seus 797 estudantes com a história e a rotina do Conjunto Confisco, onde está instalada. “Aqui sempre foi o lugar das assembleias do bairro, dos velórios, das missas”, conta a diretora Sandra Mara de Oliveira Vicente, 53 anos. “Fazemos questão de manter essa ligação porque ela é fundamental para o sucesso da escola.” Sandra, que chegou à Anne Frank há 26 anos, é uma educadora ativa.
Circula o tempo todo, prova a merenda, checa o estado dos equipamentos, conversa com a equipe, ouve o que os estudantes têm a dizer. “Temos conflitos, eles são parte da educação. O professor faz a mediação para construir, com toda a turma, uma solução.” A unidade lida com crianças em situação de risco. Algumas estão envolvidas com o crime, outras são vítimas de abuso.
“Tentamos acolher os alunos e suas famílias porque a escola precisa fazer diferença na vida deles, ser o lugar onde aprendem e se sentem seguros.” Para fortalecer seu papel na comunidade, a Anne Frank participa de uma rede de representantes do poder público no bairro, que reúne o batalhão da Polícia Militar, a Defensoria Pública, o Centro de Saúde Municipal e o Centro Cultural. “Em reuniões mensais, propomos atividades culturais e soluções para problemas do território”, explica Sandra.
Em sala de aula, projetos integram a realidade dos jovens aos conteúdos acadêmicos. Um deles, conduzido em 2016 por Moacir Fagundes Freitas, que leciona história, recebeu o Prêmio Nacional de Educação em Direitos Humanos, concedido pelo Ministério da Educação e pela Organização de Estados Ibero-Americanos. Intitulado Entre o Diário e a HQ: Estudantes Construindo a História de um Bairro, o projeto levou o 7º ano a pesquisar as origens do Confisco e a recontá-las no formato de história em quadrinhos. “Alguns jovens tinham vergonha de morar aqui”, conta Freitas.
“Iniciamos o projeto com a leitura de O Diário de Anne Frank, porque a gente trabalha com o ideário dela, que é a luta contra a violência, o preconceito, a discriminação. O nosso bairro não deixa de ser uma espécie de gueto”, explica.
Os alunos fizeram uma pesquisa de opinião entre moradores para saber o que eles pensavam sobre o lugar. Também identificaram dez mulheres que haviam participado da fundação do bairro e as entrevistaram. “A percepção deles foi se modificando”, relata o professor. “Quando procurávamos notícias que os jornais publicam sobre o Confisco, eles já estavam se indignando com a forma como o bairro deles era retratado na mídia.”
Na hora de construir a história em quadrinhos, Freitas conseguiu o apoio de dois quadrinhistas, que deram oficinas de desenho. Além do gibi, a turma fotografou o bairro. Das 700 imagens registradas, o professor escolheu 50 e montou a exposição Confisco pelo Confisco. A mostra ganhou um edital da Universidade Federal de Minas Gerais e foi exibida ao público no Circuito Cultural Praça da Liberdade, um dos pontos turísticos mais nobres de Belo Horizonte.
“Não vou esquecer a alegria dos estudantes ao ver seus nomes no painel”, relata o mestre. Anne Frank está livre de agressões? “Claro que não. Outro dia, um menino agrediu uma colega de sala e eu tive de mediar o conflito”, recorda o professor. “Educação é um processo contínuo, não acaba nunca. Os desafios vão e voltam. Sabemos disso e aprendemos a dialogar sempre.”