10 de dezembro de 2017

Ensino com diretriz


EDITORIAL

Diego Padgurschi - 3.nov.2016/Folhapress
A professora Bárbara Pinheiro durante aula de atualidades do Colégio Agostiniano Mendel, no bairro do Tatuapé, na zona leste de São Paulo
A professora Bárbara Pinheiro durante aula de atualidades do Colégio Agostiniano Mendel, no bairro do Tatuapé, na zona leste de São Paulo

Está quase pronto o documento que definirá o padrão nacional para o que crianças e jovens devem aprender até o 9º ano do ensino fundamental. Trata-se da quarta versão da Base Nacional Comum Curricular (BNCC).
Caso aprovada até janeiro, a diretriz deve começar a ser implementada nos próximos dois anos.
A BNCC define conteúdos a serem estudados e competências e habilidades que os alunos devem demonstrar a cada passo da vida escolar. Soa como obviedade, mas não existe norma válida em todo o país que estabeleça de modo preciso a progressão do ensino e o que se deve esperar como resultado.
Note-se ainda que a base curricular não especifica como alcançar seus objetivos -isso será papel dos currículos a serem elaborados por Estados e municípios, que podem fazer acréscimos conforme necessidades regionais.
A existência de um padrão pode permitir a correção de desigualdades do aprendizado e avaliações melhores. A partir de um limiar mediano de clareza, inteligência pedagógica e pragmatismo, qualquer modelo é melhor do que nenhum. Nesse aspecto, a nova versão da BNCC está perto de merecer nota de aprovação.
O programa ainda se mostra extenso em demasia, não muito diferente do que se viu nas escolas das últimas décadas, quando raramente foi cumprido. O excesso de assuntos dificulta abordagens mais aprofundadas e criativas.
A qualidade do documento é desigual. É difícil discernir como evoluirá a alfabetização das crianças em um programa de língua portuguesa ainda verboso. Há mais clareza, concisão e realismo na matemática. Parece haver excesso de ambição em ciências.
Os prólogos teóricos padecem de generalidade e de pedantismos. Restam traços de sociologismo caricato, que também transparecem na apresentação dos conteúdos de certas disciplinas, como a geografia, de resto enviesada contra a tecnologia e a economia de mercado. Mas esses prefácios não são empecilho ao sucesso da BNCC.
Este depende da elaboração de bons currículos regionais, do treinamento de professores e da criação de novos métodos e materiais didáticos. Ainda mais difícil, é preciso equipar e organizar escolas de modo a que possam cumprir as ambições do novo programa.
Pouco se sabe a respeito desses planos práticos e de seu financiamento. Nesse aspecto, a BNCC lembra a Constituição de 1988. Detalhista, arrojada e generosa, mas de difícil aplicação imediata e integral. É indiscutível, de todo modo, a urgência de pôr em prática um plano que ofereça educação decente e igualitária às crianças.

Ex-cotistas, médica do RJ e advogado do STF relatam racismo e dificuldade

M
Na faculdade de Medicina, Monique França não foi reconhecida como estudante do curso em mais de uma ocasião, mesmo quando participava de atendimento. Teve de lidar, já como médica, com uma paciente que se recusou a ser atendida por ela.
"Ela achava que eu não teria capacidade", afirma.
Aos 28 anos, Monique coleciona uma lista de obstáculos que teve de superar até conseguir chegar ao diploma –o que faz com que ela relate os dois episódios com uma certa tranquilidade.
"Um dia percebi que tinha que ser isso: militante, médica, negra, da favela e que não ia desistir", diz, relembrando a fase em que chegou a trancar o curso por um ano por não se identificar com quem a rodeava na faculdade.
Nascida em Niterói e criada na Cidade de Deus, zona oeste do Rio, Monique se formou em medicina pela Uerj (Universidade do Estado do Rio de Janeiro) no ano passado. Ela entrou por cotas em 2010 –a Uerj foi umas da pioneiras na adoção do sistema no país, em 2002, muito antes da Lei de Cotas das federais ser sancionada em 2012.
Apesar de representar mais da metade da população brasileira, calcula-se que cerca de 20% dos médicos são pretos ou pardos. A população negra enfrenta condições financeiras mais difíceis: três em cada quatro pessoas entre os 10% mais pobres do país são negras, segundo dados do IBGE de 2015.
As desigualdades também estão na escola. Ser preto no Brasil aumenta a probabilidade de fracasso escolar entre 7 e 19 pontos percentuais mesmo considerando alunos com pais que têm o mesmo perfil de escolaridade, o ensino fundamental completo.
Neste estudo de 2012, da pesquisadora Paula Louzano, o fracasso escolar foi medido pela repetência e evasão de alunos do 5º ano.
A mãe de Monique França é cabeleira, negra, foi empregada doméstica por quase toda a vida e aprendeu a ler aos 25 anos. Ao lado do pai, motorista, sempre colocou o valor da educação acima das dificuldades, diz a filha.
Na 8ª série, por iniciativa da mãe, Monique conseguiu uma bolsa em uma escola particular. Mesmo ficando em uma turma entre os 30 melhores da escola, não conseguiu passar de primeira e partiu para o cursinho. Foi a secretária do cursinho que falou pra ela sobre cotas.
"Quando entrei na universidade entendi que estava tendo oportunidade que ninguém na minha família teve. Sou a primeira. E o medo de decepcionar, por causa de uma nota, faz uma pressão enorme", diz. "Pra mim não era só mais uma etapa educacional, mas a oportunidade de mudar de vida."
Levava duas horas no ônibus entre a faculdade e a casa. Na primeira prova, tirou 3,8. Teve dificuldade de entender o modo de avaliação. Mas um 9,8 veio já no segundo teste. "Talvez a representatividade de ser uma mulher negra e médica fez com o que eu terminasse o curso."
PROFISSÃO
Hoje Monique faz residência em Medicina de Família e Comunidade em uma clínica municipal do Rio, depois de ter feito um curso em Cuba. Com a melhora na renda, mudou-se para um local próximo ao trabalho e está reformando a casa da família.
"Eu entendo quando um paciente diz que não dormiu porque passou a noite inteira com um tiroteio na porta, porque eu passei por isso", diz. "E é isso que a gente tem de aprender a fazer como médica: interpretar uma dor."
Foi também na Uerj (que passa por grave crise financeira atualmente) que Irapuã Santana, 30, ingressou no ensino superior. Ele é da segunda turma de cotas da universidade, em 2004.
Havia estudado também com bolsa em escola particular. A universidade foi, como no caso de Monique, uma novidade na família: o pai, maquinista, fez até o ensino médio. A mãe, do lar, só pôde estudar até a 4ª série.
"O primeiro ano foi bem complicado, reprovei em duas matérias. Mas depois acabei passando e comecei a me destacar", conta ele, que durante cinco anos acordava às 4h30 para conseguir cumprir a tempo o trajeto de Maricá, município da região metropolitana do Rio, onde morava, até o campus, no Maracanã, na zona norte da capital.
Depois de formado, Santana foi o primeiro advogado negro de um grande escritório no Rio, engatou um mestrado, passou em concurso para procurador, escreveu seu primeiro livro e fez um curso na universidade Yale (EUA). Hoje é professor universitário, está para concluir o doutorado e atua como assessor do ministro Luiz Fux, no STF (Supremo Tribunal Federal), em Brasília.
As condições de vida melhoraram, e Santana sabe o lado positivo de servir de inspiração. Mas os reflexos do racismo, diz ele, não seguiram a mesma tendência.
"As pessoas acham que sou motorista e segurança, é muito rotineiro. As pessoas acham que o racismo vai diminuindo, mas é o contrario. Ser o único negro é ter que provar todo dia por que estou aqui no supremo", diz.
O professor Luis Augusto Campos, do Gemaa (Grupo de Estudos Multidisciplinares da Ação Afirmativa), explica, comparando pessoas da mesma classe social, os pretos e pardos ainda têm maior dificuldades de ascensão social.
O grupo tem acompanhado o desempenho de cotistas e não cotistas nas notas das disciplinas dos cursos. Em avaliação recente na Uerj, a diferença no desenvolvimento acadêmico dos dois grupos não chega a 0,5 ponto.
"Os dados têm mostrado uma condição ótima entre mérito e inclusão. Nos cursos mais concorridos, inclui os cotistas com melhor desempenho", diz Campos, que ainda sente falta de uma avaliação institucional da política.
ENADE
Os dados do Enade analisados pela Folha que, em 37 de 64 cursos, as notas dos cotistas raciais tem uma média inferior a 5% do que a dos não cotistas. Nos outros 27, as médias dos cotistas raciais são similares (até 5% menor) ou superior.
O Enade permite identificar uma realidade ampla, mas tem limitações. Não há garantia de empenho dos estudantes na prova, uma vez que a nota não conta para o estudante –a reportagem excluiu dados de quem deixou a prova em branco.
Outra questão é de amostra. Estudantes que fizeram a avaliação entre 2014 a 2016 ingressaram quando não havia lei de cotas nas federais ou os percentuais de inclusão eram ainda tímidos. Sobretudo com relação a cotistas raciais, uma baixa quantidade de beneficiados fragiliza uma análise mais conclusiva sobre esse grupo.
Em 2003, as federais tinham 34,2% de alunos pretos e pardos. Em 2014, esse índice subiu para 47,6% (em uma população de 53%). Os dados são da Andifes (associação dos reitores das instituições federais). Os dados escondem a baixa inclusão em cursos concorridos.

Cotista tem nota boa na universidade, mas recua em cursos com matemática

Uma das principais perguntas no debate sobre cotas em universidades públicas é se alunos beneficiados conseguem acompanhar a faculdade. Os dados mostram que aqueles que entram por esse caminho se formam com desempenho próximo aos demais alunos em pouco mais da metade dos cursos.
A nota deles é inferior, porém, especialmente nas exatas. Dos dez cursos em que os cotistas estão mais atrás dos demais, sete são dessa área.
Folha analisou o desempenho de 252 mil estudantes nas últimas três edições do Enade, de 2014 a 2016. O exame é aplicado pelo Ministério da Educação a alunos no último ano da graduação e contém perguntas de conhecimentos gerais e específicos.
Em 33 dos 64 cursos, a nota média dos estudantes beneficiados por cotas ou outra ação afirmativa foi superior ou até 5% inferior -desempenho considerado semelhante, pois representa diferença de até dois pontos em cem possíveis em uma prova.
Estão nesse grupo odontologia (3% superior), ciências sociais (exatamente igual) ou medicina (2% inferior).
caminho durante o ensino superior se mostra ainda mais positivo para esses estudantes beneficiados se considerado que eles começam o curso com desempenho inferior aos demais alunos.
Em odontologia, a nota de entrada dos estudantes beneficiados por cotas é 6% menor, segundo projeção feita com base no sistema de ingresso nas universidades federais em 2015. Em ciências sociais e medicina, por exemplo, é de 4% abaixo.
Ou seja, sem a reserva de vagas, esses estudantes provavelmente não estariam na universidade pública, pois teriam sido ultrapassados no processo seletivo por alunos de colégios particulares.
OPORTUNIDADE
A política de cotas tem como objetivo aumentar a presença em universidades públicas de populações que são representativas na sociedade, mas têm tido acesso limitado ao ensino superior -como alunos de escolas públicas, negros ou indígenas.
"Uma vez que esse aluno desfavorecido entra numa universidade pública, ele vai fazer de tudo para aproveitar a oportunidade", afirma o ex-ministro da Educação (gestão Dilma) Luiz Cláudio Costa.
Ele diz que, se o cotista ficar com nota até 10% menor que a de um não cotista no Enade, significa que eles estão praticamente empatados (a reportagem utilizou 5% como critério). Pelo modelo do ex-ministro, os alunos que utilizaram cotas estariam empatados ou acima dos demais em 54 dos 64 cursos.
Em qualquer um dos critérios, fica nítido que, nas exatas, há maiores dificuldades para os estudantes beneficiados por ação afirmativa.
Entre os 31 cursos que os alunos de ação afirmativa tiveram média ao menos 5% inferior, 13 são de exatas.
Nos cursos em que eles tiveram desempenho melhor, nenhum é de exatas.
A defasagem em matemática dos alunos das escolas públicas é evidente desde o ensino básico. Apenas 4% desses alunos se formam com desempenho adequado, ante 22% em português.
"Especialmente os primeiros três semestres são puxados para qualquer aluno, porque exige muita matemática", diz o presidente da Associação Brasileira de Educação em Engenharia, Vanderli Fava de Oliveira. "Para o cotista é ainda pior, porque ele chega com mais defasagem."
Professor de engenharia da Universidade de Juiz de Fora (MG), Oliveira diz que, nos primeiros semestres nas engenharias, a evasão bate os 50%, para cotistas e não cotistas.
Ele defende que as universidades devam ter programas de acolhimento, em que as dificuldades sejam atenuadas com aulas de reforço, e que haja também apoio social.
A medida poderia ajudar alunos como Luan Lima, 21. Ele ingressou em 2015 em engenharia na Universidade Federal de São Carlos (SP) por meio de cotas para rede pública. De cara, reprovou em duas disciplinas de cálculo e em outra de programação.
"Muitas das bases da matemática para desenvolver os cálculos eu não tinha visto na escola", conta ele, cuja mãe é empregada doméstica.
Sem conseguir bolsas de permanência estudantil, teve de voltar para São Paulo.
Ingressou em engenharia da informação na Federal do ABC. Hoje no 2º ano, Lima tem se sentido mais à vontade com o curso. "Senti uma diferença na questão de costume, de como estudar e fazer as provas. Fica mais difícil quando você nem sabe como correr atrás", diz.
Secretário-executivo da Andifes (associação dos dirigentes das universidades federais), Gustavo Balduíno diz que quase todas as instituições se preocupam com atendimento a alunos carentes.
"Mas são problemas para os quais precisamos procurar soluções de forma permanente", diz ele, citando exemplos como da UFABC, que tem curso de reforço em matemática.
HISTÓRICO
A primeira universidade de grande porte a adotar as cotas foi a Uerj, em 2003. Em 2012, o governo federal aprovou lei que determinou que 50% das vagas nas federais devam ser ocupadas por alunos de colégios públicos.
Dentro dessa reserva, há subcotas, considerando cor da pele e baixa renda.
Outras instituições, em vez de determinar uma cota, preferiam dar bônus aos estudantes da rede pública no vestibular. Era o caso da USP.
Neste ano, porém, a universidade decidiu aprovar também reserva de vagas, de 50%, reaquecendo o debate sobre a política (como instituição estadual, ela não precisaria cumprir a lei federal).
Crítico da decisão, o professor Sérgio Almeida, da Faculdade de Economia da USP, diz que o debate carece de informações científicas.
"Como não definem muito bem o objetivo, a opção foi fazer uma coisa universal. Mas há cursos que não precisam de cotas e outros que precisaria de política até mais agressiva, como medicina."
Para a turma que ingressará no ano que vem na USP, haverá cota inclusive racial. Esta modalidade é a que causa mais controvérsia no país, pois muitos especialistas consideram impossível classificar pessoas segundo raças.
O levantamento da Folha mostra que há ainda dificuldade adicional. O desempenho dos cotistas que entraram por reserva racial é inferior ao dos demais cotistas. Em 22 cursos, eles tiveram média ao menos 10% inferior.
ENADE
Os dados do Enade analisados pela Folha mostram que, em 37 de 64 cursos, as notas dos cotistas raciais tem uma média inferior a 5% do que a dos não cotistas. Nos outros 27, as médias dos cotistas raciais são similares (até 5% menor) ou superior.
O Enade permite identificar uma realidade ampla, mas tem limitações. Não há garantia de empenho dos estudantes na prova, uma vez que a nota não conta para o estudante -a reportagem excluiu dados de quem deixou a prova em branco.
Outra questão é de amostra. Estudantes que fizeram a avaliação entre 2014 a 2016 ingressaram quando não havia lei de cotas nas federais ou os percentuais de inclusão eram ainda tímidos. Sobretudo com relação a cotistas raciais, uma baixa quantidade de beneficiados fragiliza uma análise mais conclusiva sobre esse grupo.
Em 2003, as federais tinham 34,2% de alunos pretos e pardos. Em 2014, esse índice subiu para 47,6% (em uma população de 53%). Os dados são da Andifes (associação dos reitores das instituições federais). Os dados escondem a baixa inclusão em cursos concorridos.
FRAUDES
Após a discussão sobre a pertinência de cotas nas universidades (que teve a adesão neste ano de USP e Unicamp, as duas últimas grandes do país que resistiam ao sistema), denúncias de fraudes na ocupação de vagas destinadas a negros e indígenas têm representado um novo capítulo de polêmicas.
Como o critério geral é o de autodeclaração, estudantes brancos têm ocupado as vagas ao se inscreverem pelos critérios raciais. Dados do sistema de seleção das federais mostram que as notas de corte nas vagas destinadas a esse grupo são menores.
Em setembro, Folha revelou fraudes na Universidade Federal de Minas Gerais. A instituição prometeu refinar o sistema de comprovação, e o Ministério Público Federal abriu investigação.
Após denúncia de fraudes, a Unesp (Universidade Estadual Paulista) criou uma comissão de verificação no meio deste ano. "A ideia é assegurar a efetividade da política. Há preocupação para não constranger ninguém, abrindo a possibilidade de o aluno nos apresentar o que o levou a se declarar", afirma Juarez Xavier, da pró-reitoria de extensão universitária.
O professor Xavier, que é do movimento negro, diz que a discussão se refere a um momento específico do Brasil. "Temos tido a primeira experiência no mundo em cotas para a maioria da população, é um desafio lidar com isso."
Pelo censo populacional, 53% da população é negra. Nos Estados Unidos, por exemplo, são 12%.
O diretor da ONG Educafro, frei David Santos, afirma que as denúncias estão se avolumando. Ele defende estratégias de verificação dos aprovados -um entendimento que, segundo ele, amadureceu no movimento negro. "Queremos que as universidades façam editais específicos para negros ocuparem as vagas ociosas por causa de fraudes."
Para Gustavo Balduíno, da Andifes (que reúne dirigentes das federais), as denúncias não podem colocar os projetos em xeque. "Esses casos são residuais e não comprometem a política."
*

9 de dezembro de 2017

Silicon Valley Takes Over Classrooms: Yes and No (Part 2) by larrycuban


Natasha Singer's series of New York Times articles in the past six months showed persuasively that top Silicon Valley companies have increased student and teacher access to digital devices and software across the nation. But Singer also claims that expanded access has led to these high-tech tools dominating classroom lessons. Google, et. al. tools shape what teachers do daily. She says:
Through their philanthropy, they are influencing the subjects that schools teach, the classroom tools that teachers choose and fundamental  approaches to learning.
Yes, I have observed in Silicon Valley and elsewhere how these high-tech Goliaths have helped increase student access to digital tools across the nation. But I have not observed their influence on "the subjects that schools teach" and, most important, on "fundamental approaches to learning." To that I say "no."
Conflating access with use is a common error that journalists, researchers, and promoters of digital tools make. In this post I argue that access can surely lead to more use in lessons but anyone who knows classrooms understands that daily use covers a range of teacher-directed activities combining high- and low-tech tools.
I observed 41 Silicon Valley classrooms in 12 different schools during 2016 where teacher identified as exemplary in integrating digital tools have neither abandoned teacher-directed lessons in favor of student-centered instruction nor surrendered to the allure of these devices and software. While they use these digital and non-digital tools often, these devices have moved from the foreground of their lessons to the background.  These electronic tools have become like paper and pencil and prompt no longer "Gee Whiz" or "look at that" responses. What these devices and software have not done, however, is alter these teachers' "fundamental approaches to learning."
After observing these teachers' lessons, I asked them if using these digital tools had altered how they they teach. Although nearly two of three teachers said they had definitely changed how they taught as a result of integrating digital tools into their daily lessons, a large minority of teachers said that using new technologies in lessons had not changed their practice. How to reconcile these conflicting views?
First, I distinguish between fundamental and incremental changes, types of common changes that have occurred in the two-century history of the U.S. age-graded school.
By fundamental change, I mean altering the basic building blocks of US schooling, such as requiring taxpayers to fund public schools and give access to all students, establishing goals for schooling (e.g., all students will be literate, discharge their civic duties, and be vocationally prepared for the labor market), and organizing curricula and instructional practices in age-graded elementary and secondary schools. These building blocks are structures that have defined public schools and influenced what occurs in classrooms for the past two centuries.
Changing them fundamentally means altering funding (e.g., vouchers, charter schools), governance (e.g., site-based management, mayoral control), organization (e.g., moving from an age-graded school to non-graded teams and entire schools), curriculum (e.g., New Math, “hands-on” science), and instruction (e.g., moving from teacher-centered to student-centered pedagogy).
Often those who champion changes in public schools talk about “real reform” or “transformation of schooling.” What they refer to are fundamental changes in one or more structures of schooling, not incremental changes.
Incremental changes refer to amending current structures and practices, not making deep changes to or removing core components of schooling. Examples include creating new academic courses, extending the school day or year, reducing class size, raising teacher salaries, and introducing new reading or math programs. Such changes do not alter the basic structures of public schools. They correct deficiencies and improve existing structures. They do not replace the goals, funding, organization, and governance of schools—they are add-ons. Many promoters of deep change in schools call such changes “tinkering,” usually in a dismissive way, because they want “real reform” or fundamental reordering of existing structures.
In most instances, reform-minded teachers, administrators, policy makers, and non-educators push for change without distinguishing between one kind or the other. Often, as a result, what was urged as a reform that would substantially alter what occurs in classrooms turns out to be a minor modification of existing practice—a butterfly alighting on a rose—disappointing many advocates who seek a change that follows the trajectory of a bullet.
The same can be said for those who sought to shake--"disrupt" was the favored verb---the foundations of age-graded schools with reforms such as vouchers, online schools, or their version of "personalized learning" that then fall far short of their aspirations.
Of the 65 percent of teachers who said they had changed their practice because of using digital tools, nearly all have implemented incremental changes in how they teach using devices and software. They believe that these changes made a difference in how they teach and helped their students learn. They became far more productive and efficient in teaching lessons. After observing lessons and interviewing the teachers, I see no reason to doubt what they say.
Then there were a handful of teachers who said that digital tools had been helpful but had not basically changed how they teach. The basic planning, the activity sequence during lessons, and how they interacted with students in and out of class had not shifted because of the technologies they used. These teachers distinguished between the productivity high-tech tools brought to their work and their craft and content knowledgein formatting and enacting a lesson.
Second I see both change and stability as central to the conduct of teaching over the past two centuries. Neither one nor the other—both.
Some researchers and teachers have come to recognize that change and stability are (and have been) the conjoined twins of tax-supported schooling in the United States. They cannot be separated, since organizations including the classroom adapt to change and end up preserving stability in lesson format and content. Dynamic conservatism is another way of saying that change is crucial to organizational stability—that the pedagogical hybrids that teachers have developed over decades prove how teaching changes to retain the familiar. Stability and change in teaching is more than a passing fad; it is a permanent condition.

Based on my experience as a teacher and the knowledge gleaned from historical detective work on how teachers have taught over the past century, I conclude—and the distinctions these teachers drew demonstrate—there is both change and stability in teaching. Yes, there have been changes in practice. At the same time, there has been constancy in how teachers set goals, organize, and execute lessons; these have not been replaced by digital tools.
These concepts of the inseparability of constancy and change in teaching and the dichotomy of changes has not only helped me make sense of the language and action of school and classroom reform but also given me a way of explaining teacher responses to my questions.
And because of these distinctions I make from my observations of these 41 exemplary Silicon Valley teachers,  high-tech Goliaths have not influenced, as Natasha Singer claims, "fundamental  approaches to learning."



larrycuban | December 9, 2017 

7 de dezembro de 2017

A imprensa que temos


Animadas por líderes irresponsáveis, as multidões creem em irrealidades invisíveis

*Eugênio Bucci, O Estado de S.Paulo
07 Dezembro 2017 | 03h07
Embora seja temerária qualquer previsão para o ano que vem, de uma coisa a gente pode ter certeza desde já: o chavão de que as empresas jornalísticas manipulam e jogam sujo vai atropelar os olhos e os ouvidos dos pobres eleitores. Repórteres levarão a culpa pelos reveses dos partidos. Demagogos que não leem coisa alguma, nem mesmo os títulos de alto de página, insultarão as redações como se fossem luminares do “media criticism”.
É claro que em 2018 o noticiário cometerá erros. Nada de novo sob o Sol. Os bombardeios que políticos movem contra a imprensa, porém, não são provocados pelos erros, e sim pelos acertos. Quanto mais acerta, mais a imprensa apanha dos poderosos. Os ataques vêm porque os órgãos jornalísticos cumprem seu papel e não traem seu público. Apesar dos desvios técnicos e éticos, que não são poucos nem irrelevantes, o trabalho dos jornalistas profissionais brasileiros tem sido uma das pouquíssimas reservas de verdade factual com que podemos contar.
Enfim, é por terem um mínimo de credibilidade que os jornais seguirão sob açoite num tempo em que os irracionalismos militantes se exasperam, um tempo marcado pela falta de senso e de coerência lógica, um tempo propício para os populismos de muitos matizes. Vejamos como são as coisas. Todos são unânimes em defender, em tese, que os corruptos sejam punidos; ao mesmo tempo, quase todos são contra qualquer julgamento quando o réu é alguém de seu partido, de sua estima ou de sua idolatria. Segundo a mentalidade da nossa era, corrupção ruim é a “corrupção dos outros”. De outra parte, a Justiça que apura a “nossa corrupção” não é Justiça – é a “Justiça dos outros”.
Logo, qualquer esforço para elucidar os fatos, de modo impessoal e apartidário, tende a ser recebido como um complô imundo para desmoralizar os políticos sacrossantos, pois a imprensa, de acordo com essa alucinação febril, não é nada além de instrumento de algum complô. O fanático menciona o nome de um ou outro jornal e proclama, com ares de profeta: “Você pode até não ver que conluio se esconde atrás das notícias, mas que algum complô existe, ah, pode apostar que existe”.
Chegamos, então, ao paradoxo interessantíssimo que nos aprisiona: no geral, todos concordam que os corruptos devem ser afastados da política e, no particular, todos acusam a Justiça de perseguir com selvageria o líder de sua predileção. Quando Jair Bolsonaro é acusado de fazer apologia da tortura ou do estupro, seus partidários protestam dizendo que tudo não passa de uma conspiração da Justiça e da imprensa. Quando Luiz Inácio Lula da Silva é acusado de fazer vista grossa para desvios oceânicos de dinheiro público, seus partidários protestam dizendo que tudo não passa de uma conspiração da Justiça e da imprensa. De forma quase idêntica, os furibundos de um lado e de outro atribuem à imprensa a causa do que dá errado com seus pretensos mitos salvadores.
A psicologia das massas perde conexão com os fatos. Animadas por líderes irresponsáveis, as multidões creem piamente em irrealidades fantasmagóricas invisíveis. Nossa imprensa se reduz mesmo a isso que dizem seus inimigos? Será que ela não passa de um amontoado de estratagemas mal costurados para derrubar esses e aqueles? As evidências, todas elas, respondem que não.
Um caso bem didático é o do alcaide de São Paulo. Muitos ainda acreditam que ele tenha sido eleito no bojo de uma articulação secreta e dolosa urdida pela “mídia” paulistana. Será? A relação de João Doria com a imprensa está longe de ser uma lua de mel. Ao contrário, a cobertura objetiva das mazelas da metrópole atrapalhou de vez a rotina e as ambições do prefeito. O tratamento que ele recebe no noticiário, visto no conjunto, não é melhor ou pior do que o que foi dispensado ao seu antecessor. Mal ou bem, o jornalismo fiscaliza o exercício do poder municipal. Não houve e não há complô “midiático” para eleger ou para sustentar João Doria.
Outro ponto crucial para avaliarmos a qualidade da imprensa é verificar se ela é um bloco organizado, que se comporta como um partido centralizado, ou se ela abre espaços para a pluralidade. Outra vez, não serão necessários grandes mergulhos teóricos para verificar que há diversidade de pontos de vista nas páginas dos jornais – e também entre os jornais. O pluralismo pode ser acanhado, débil, mas ele está aí.
Uma prova clara disso apareceu quando, em maio passado, o empresário Joesley Batista, numa conversa traiçoeira e esquisita, gravou os “ãs” e “arrãs” de Michel Temer para usá-los num acordo de delação premiada. Os três maiores jornais do País adotaram posições discrepantes, distintas. O Globo pediu em editorial a saída do presidente: “A renúncia é uma decisão unilateral do presidente. Se desejar, não o que é melhor para si, mas para o país, esta acabará sendo a decisão que Michel Temer tomará” (A renúncia do presidente, 20 de maio de 2017.) Os editoriais de O Estado de S. Paulo ficaram do lado oposto: “O vazamento de parte da delação do empresário Joesley Batista para a imprensa não foi um acidente. Seguramente há, nos órgãos que têm acesso a esse tipo de documento, quem esteja interessado, sabe-se lá por quais razões, em gerar turbulência no governo exatamente no momento em que o presidente Michel Temer parecia ter arregimentado votos suficientes para a difícil aprovação da reforma da Previdência” (A hora da responsabilidade, 19 maio de 2017) A Folha de S.Paulo, que tinha sido a única a defender, em 2016, a convocação de eleições gerais, preferiu uma postura de cautela.
Qual dos três tinha razão? Pouco importa. O que importa é que há debate na esfera pública. Há um mínimo de pluralismo. O jornalismo não é o causador da tragédia nacional. A imprensa deve e precisa melhorar, é claro, mas para isso a primeira atitude que os cidadãos e os políticos precisam tomar é parar de mentir sobre ela.
Animadas por líderes irresponsáveis, as multidões creem em irrealidades invisíveis
Embora seja temerária qualquer previsão para o ano que vem, de uma coisa a gente pode ter certeza desde já: o chavão de que as empresas jornalísticas manipulam e jogam sujo vai atropelar os olhos e os ouvidos dos pobres eleitores. Repórteres levarão a culpa pelos reveses dos partidos. Demagogos que não leem coisa alguma, nem mesmo os títulos de alto de página, insultarão as redações como se fossem luminares do “media criticism”.
É claro que em 2018 o noticiário cometerá erros. Nada de novo sob o Sol. Os bombardeios que políticos movem contra a imprensa, porém, não são provocados pelos erros, e sim pelos acertos. Quanto mais acerta, mais a imprensa apanha dos poderosos. Os ataques vêm porque os órgãos jornalísticos cumprem seu papel e não traem seu público. Apesar dos desvios técnicos e éticos, que não são poucos nem irrelevantes, o trabalho dos jornalistas profissionais brasileiros tem sido uma das pouquíssimas reservas de verdade factual com que podemos contar.
Enfim, é por terem um mínimo de credibilidade que os jornais seguirão sob açoite num tempo em que os irracionalismos militantes se exasperam, um tempo marcado pela falta de senso e de coerência lógica, um tempo propício para os populismos de muitos matizes. Vejamos como são as coisas. Todos são unânimes em defender, em tese, que os corruptos sejam punidos; ao mesmo tempo, quase todos são contra qualquer julgamento quando o réu é alguém de seu partido, de sua estima ou de sua idolatria. Segundo a mentalidade da nossa era, corrupção ruim é a “corrupção dos outros”. De outra parte, a Justiça que apura a “nossa corrupção” não é Justiça – é a “Justiça dos outros”.
Logo, qualquer esforço para elucidar os fatos, de modo impessoal e apartidário, tende a ser recebido como um complô imundo para desmoralizar os políticos sacrossantos, pois a imprensa, de acordo com essa alucinação febril, não é nada além de instrumento de algum complô. O fanático menciona o nome de um ou outro jornal e proclama, com ares de profeta: “Você pode até não ver que conluio se esconde atrás das notícias, mas que algum complô existe, ah, pode apostar que existe”.
Chegamos, então, ao paradoxo interessantíssimo que nos aprisiona: no geral, todos concordam que os corruptos devem ser afastados da política e, no particular, todos acusam a Justiça de perseguir com selvageria o líder de sua predileção. Quando Jair Bolsonaro é acusado de fazer apologia da tortura ou do estupro, seus partidários protestam dizendo que tudo não passa de uma conspiração da Justiça e da imprensa. Quando Luiz Inácio Lula da Silva é acusado de fazer vista grossa para desvios oceânicos de dinheiro público, seus partidários protestam dizendo que tudo não passa de uma conspiração da Justiça e da imprensa. De forma quase idêntica, os furibundos de um lado e de outro atribuem à imprensa a causa do que dá errado com seus pretensos mitos salvadores.
A psicologia das massas perde conexão com os fatos. Animadas por líderes irresponsáveis, as multidões creem piamente em irrealidades fantasmagóricas invisíveis. Nossa imprensa se reduz mesmo a isso que dizem seus inimigos? Será que ela não passa de um amontoado de estratagemas mal costurados para derrubar esses e aqueles? As evidências, todas elas, respondem que não.
Um caso bem didático é o do alcaide de São Paulo. Muitos ainda acreditam que ele tenha sido eleito no bojo de uma articulação secreta e dolosa urdida pela “mídia” paulistana. Será? A relação de João Doria com a imprensa está longe de ser uma lua de mel. Ao contrário, a cobertura objetiva das mazelas da metrópole atrapalhou de vez a rotina e as ambições do prefeito. O tratamento que ele recebe no noticiário, visto no conjunto, não é melhor ou pior do que o que foi dispensado ao seu antecessor. Mal ou bem, o jornalismo fiscaliza o exercício do poder municipal. Não houve e não há complô “midiático” para eleger ou para sustentar João Doria.
Outro ponto crucial para avaliarmos a qualidade da imprensa é verificar se ela é um bloco organizado, que se comporta como um partido centralizado, ou se ela abre espaços para a pluralidade. Outra vez, não serão necessários grandes mergulhos teóricos para verificar que há diversidade de pontos de vista nas páginas dos jornais – e também entre os jornais. O pluralismo pode ser acanhado, débil, mas ele está aí.
Uma prova clara disso apareceu quando, em maio passado, o empresário Joesley Batista, numa conversa traiçoeira e esquisita, gravou os “ãs” e “arrãs” de Michel Temer para usá-los num acordo de delação premiada. Os três maiores jornais do País adotaram posições discrepantes, distintas. O Globo pediu em editorial a saída do presidente: “A renúncia é uma decisão unilateral do presidente. Se desejar, não o que é melhor para si, mas para o país, esta acabará sendo a decisão que Michel Temer tomará” (A renúncia do presidente, 20 de maio de 2017.) Os editoriais de O Estado de S. Paulo ficaram do lado oposto: “O vazamento de parte da delação do empresário Joesley Batista para a imprensa não foi um acidente. Seguramente há, nos órgãos que têm acesso a esse tipo de documento, quem esteja interessado, sabe-se lá por quais razões, em gerar turbulência no governo exatamente no momento em que o presidente Michel Temer parecia ter arregimentado votos suficientes para a difícil aprovação da reforma da Previdência” (A hora da responsabilidade, 19 maio de 2017) A Folha de S.Paulo, que tinha sido a única a defender, em 2016, a convocação de eleições gerais, preferiu uma postura de cautela.
Qual dos três tinha razão? Pouco importa. O que importa é que há debate na esfera pública. Há um mínimo de pluralismo. O jornalismo não é o causador da tragédia nacional. A imprensa deve e precisa melhorar, é claro, mas para isso a primeira atitude que os cidadãos e os políticos precisam tomar é parar de mentir sobre ela.
Animadas por líderes irresponsáveis, as multidões creem em irrealidades invisíveis
Embora seja temerária qualquer previsão para o ano que vem, de uma coisa a gente pode ter certeza desde já: o chavão de que as empresas jornalísticas manipulam e jogam sujo vai atropelar os olhos e os ouvidos dos pobres eleitores. Repórteres levarão a culpa pelos reveses dos partidos. Demagogos que não leem coisa alguma, nem mesmo os títulos de alto de página, insultarão as redações como se fossem luminares do “media criticism”.
É claro que em 2018 o noticiário cometerá erros. Nada de novo sob o Sol. Os bombardeios que políticos movem contra a imprensa, porém, não são provocados pelos erros, e sim pelos acertos. Quanto mais acerta, mais a imprensa apanha dos poderosos. Os ataques vêm porque os órgãos jornalísticos cumprem seu papel e não traem seu público. Apesar dos desvios técnicos e éticos, que não são poucos nem irrelevantes, o trabalho dos jornalistas profissionais brasileiros tem sido uma das pouquíssimas reservas de verdade factual com que podemos contar.
Enfim, é por terem um mínimo de credibilidade que os jornais seguirão sob açoite num tempo em que os irracionalismos militantes se exasperam, um tempo marcado pela falta de senso e de coerência lógica, um tempo propício para os populismos de muitos matizes. Vejamos como são as coisas. Todos são unânimes em defender, em tese, que os corruptos sejam punidos; ao mesmo tempo, quase todos são contra qualquer julgamento quando o réu é alguém de seu partido, de sua estima ou de sua idolatria. Segundo a mentalidade da nossa era, corrupção ruim é a “corrupção dos outros”. De outra parte, a Justiça que apura a “nossa corrupção” não é Justiça – é a “Justiça dos outros”.
Logo, qualquer esforço para elucidar os fatos, de modo impessoal e apartidário, tende a ser recebido como um complô imundo para desmoralizar os políticos sacrossantos, pois a imprensa, de acordo com essa alucinação febril, não é nada além de instrumento de algum complô. O fanático menciona o nome de um ou outro jornal e proclama, com ares de profeta: “Você pode até não ver que conluio se esconde atrás das notícias, mas que algum complô existe, ah, pode apostar que existe”.
Chegamos, então, ao paradoxo interessantíssimo que nos aprisiona: no geral, todos concordam que os corruptos devem ser afastados da política e, no particular, todos acusam a Justiça de perseguir com selvageria o líder de sua predileção. Quando Jair Bolsonaro é acusado de fazer apologia da tortura ou do estupro, seus partidários protestam dizendo que tudo não passa de uma conspiração da Justiça e da imprensa. Quando Luiz Inácio Lula da Silva é acusado de fazer vista grossa para desvios oceânicos de dinheiro público, seus partidários protestam dizendo que tudo não passa de uma conspiração da Justiça e da imprensa. De forma quase idêntica, os furibundos de um lado e de outro atribuem à imprensa a causa do que dá errado com seus pretensos mitos salvadores.
A psicologia das massas perde conexão com os fatos. Animadas por líderes irresponsáveis, as multidões creem piamente em irrealidades fantasmagóricas invisíveis. Nossa imprensa se reduz mesmo a isso que dizem seus inimigos? Será que ela não passa de um amontoado de estratagemas mal costurados para derrubar esses e aqueles? As evidências, todas elas, respondem que não.
Um caso bem didático é o do alcaide de São Paulo. Muitos ainda acreditam que ele tenha sido eleito no bojo de uma articulação secreta e dolosa urdida pela “mídia” paulistana. Será? A relação de João Doria com a imprensa está longe de ser uma lua de mel. Ao contrário, a cobertura objetiva das mazelas da metrópole atrapalhou de vez a rotina e as ambições do prefeito. O tratamento que ele recebe no noticiário, visto no conjunto, não é melhor ou pior do que o que foi dispensado ao seu antecessor. Mal ou bem, o jornalismo fiscaliza o exercício do poder municipal. Não houve e não há complô “midiático” para eleger ou para sustentar João Doria.
Outro ponto crucial para avaliarmos a qualidade da imprensa é verificar se ela é um bloco organizado, que se comporta como um partido centralizado, ou se ela abre espaços para a pluralidade. Outra vez, não serão necessários grandes mergulhos teóricos para verificar que há diversidade de pontos de vista nas páginas dos jornais – e também entre os jornais. O pluralismo pode ser acanhado, débil, mas ele está aí.
Uma prova clara disso apareceu quando, em maio passado, o empresário Joesley Batista, numa conversa traiçoeira e esquisita, gravou os “ãs” e “arrãs” de Michel Temer para usá-los num acordo de delação premiada. Os três maiores jornais do País adotaram posições discrepantes, distintas. O Globo pediu em editorial a saída do presidente: “A renúncia é uma decisão unilateral do presidente. Se desejar, não o que é melhor para si, mas para o país, esta acabará sendo a decisão que Michel Temer tomará” (A renúncia do presidente, 20 de maio de 2017.) Os editoriais de O Estado de S. Paulo ficaram do lado oposto: “O vazamento de parte da delação do empresário Joesley Batista para a imprensa não foi um acidente. Seguramente há, nos órgãos que têm acesso a esse tipo de documento, quem esteja interessado, sabe-se lá por quais razões, em gerar turbulência no governo exatamente no momento em que o presidente Michel Temer parecia ter arregimentado votos suficientes para a difícil aprovação da reforma da Previdência” (A hora da responsabilidade, 19 maio de 2017) A Folha de S.Paulo, que tinha sido a única a defender, em 2016, a convocação de eleições gerais, preferiu uma postura de cautela.
Qual dos três tinha razão? Pouco importa. O que importa é que há debate na esfera pública. Há um mínimo de pluralismo. O jornalismo não é o causador da tragédia nacional. A imprensa deve e precisa melhorar, é claro, mas para isso a primeira atitude que os cidadãos e os políticos precisam tomar é parar de mentir sobre ela.
*Jornalista, é professor da ECA-USP