8 de dezembro de 2015

Os estudantes que derrubaram a reestruturação das escolas de São Paulo


07 de dezembro de 2015
Como os estudantes de São Paulo, inspirados na revolta secundarista do Chile, usaram a reorganização escolar para impor uma derrota ao governo Alckmin

Fonte: Revista Época



O estopim foi o atraso do passe estudantil. Não era a primeira vez. Estudantes secundaristas revoltados com o governo foram às ruas. A passeata tomou corpo. A polícia reprimiu. Foram, então, para dentro de suas próprias escolas. Não para ter aula. Mas para protestar. O passe escolar era só um detalhe a essa altura. A pauta se ampliara para tudo o que tivesse impacto na educação.
Assim começou A Rebelião dos Pinguins, a maior revolta estudantil da história do Chile. Entre abril e outubro de 2006, 1 milhão de estudantes (com o uniforme escolar “de pinguim”, que consiste em camisa branca com colete preto) invadiram as ruas e tomaram as escolas do país. O movimento derrubou o ministro da Educação, o da Segurança e alterou uma série de regras da educação do país, de forma sem precedentes.
A Rebelião dos Pinguins é a inspiração de parte dos alunos que brecaram o projeto de reorganização das escolas de São Paulo. Assim como no Chile, para conseguir seu objetivo, os estudantes ocuparam suas escolas, impedindo a continuidade das aulas nessas unidades. Nas contas da Secretaria de Educação, foram 191 escolas ocupadas. Nas contas do Sindicato dos Professores, chegaram a 220 escolas.
Na sexta-feira, dia 4, o governador Geraldo Alckmin, do PSDB, anunciou o adiamento da reorganização em um ano. Em seu breve pronunciamento, o governador citou o papa Francisco: “Entre a indiferença egoísta e o protesto violento, há uma opção sempre possível: o diálogo”. Uma pesquisa do Instituto de Pesquisas Datafolha, divulgada na sexta-feira, dia 4, registrou que apenas 28% do eleitorado paulista considera o governo Alckmin ótimo ou bom – o pior índice já registrado ao longo de seus quatro mandatos como governador. O fechamento das escolas públicas e a crise hídrica, diz a pesquisa, contribuíram para a queda. Pouco antes do pronunciamento do governador, o secretário da Educação Herman Voorwald entregara uma carta com pedido de demissão.
O plano do governo paulista era redistribuir alunos, criar mais de 700 escolas de ciclo único – ou seja, só de ensino médio ou só de ensino fundamental – e desocupar 93 escolas para outros fins, como creches, escolas técnicas e centros de educação de adultos. De tempos em tempos, reorganizações na rede escolar são necessárias e até inevitáveis. Paraná, Goiás e Pernambuco também estudam a reorganização de suas redes. A decisão do governador Geraldo Alckmin de aproveitar o movimento para criar escolas de ciclo único para melhorar a qualidade da educação encontra respaldo em pesquisas e na experiência de diversos países.
Nenhum desses fatores foi suficiente para amortecer o impacto da barbeiragem que o governo de São Paulo cometeu na condução do processo: não discutiu o projeto de forma ampla e transparente com estudantes, famílias e professores. Ao subestimar a importância de se comunicar com os alunos, o governo colocou em xeque a legitimidade de uma mudança que poderia melhorar a educação básica do país.
A trapalhada do governo estimulou a mobilização inédita dos estudantes em torno da educação pública – um aspecto positivo num país em que o assunto foi relegado à indiferença por décadas. Até mesmo o então secretário da Educação de São Paulo, Herman Voorwald, principal responsável pela reorganização da rede escolar, enalteceu o engajamento dos alunos com a questão da educação. “É uma satisfação ver o compromisso que esses alunos demonstram com suas escolas e a educação”, disse ele na mesma entrevista em que condenou o envolvimento de grupos políticos nas manifestações. “Isso era algo que faltava aos alunos do ensino médio.”
Em proporções menores, as ocupações produziram nos estudantes efeitos semelhantes aos das manifestações de junho de 2013. A reorganização serviu para dar voz aos estudantes frustrados com as falhas e deficiências do sistema escolar. Também acordou os que se mantinham distantes das discussões em torno da educação e preferiram se concentrar nos estudos. Todos foram levados a refletir sobre o que querem para a escola e para a educação.

Andressa Mendes, de 19 anos, que ocupa a escola Moacyr Campos, a Mocam, na Zona Leste de São Paulo, faz parte do time de estudantes que encontrou na reorganização um pretexto para reclamar melhorias gerais no sistema de educação. Ela fez seu primeiro contato com um movimento popular durante as manifestações de 2013. “Eu estava lá na frente quando estourou a pancadaria”, diz Andressa. “Foi a primeira vez que pudemos mudar as coisas.” Ela se formou no ensino médio no ano passado. Hoje, estuda em casa para entrar em uma faculdade pública. Andressa não tem pai e vive com a mãe, que trabalha como diarista. Também não tem dinheiro para o transporte até o cursinho gratuito. Por isso, estuda sozinha. “Com uma educação de qualidade, eu poderia estar na universidade. Estou aqui para que esses alunos tenham mais chances do eu que tive.”
Os objetivos dos manifestantes mudavam de escola para escola. Dentro da Fernão Dias Paes, em Pinheiros, um bairro de classe média de São Paulo, um clima de euforia reinava entre os estudantes. Na semana passada, os manifestantes da escola deixaram a ocupação, em várias ocasiões, para fazer protestos em ruas da cidade. Na última quarta-
feira, a reportagem estava dentro da escola quando a convocação para parar o trânsito numa movimentada rua das imediações começou. Um dos alunos tocava um bumbo e gritava: “Vamos lá, apanhar de PM!”. A voz foi seguida de gritos de excitação dos cerca de dez ocupantes que estavam dentro da escola. Uma das estudantes mais engajadas da Fernão Dias Paes, Vanessa Cristina, de 17 anos, usa o que aprendeu no documentário A rebelião dos pinguins, de Carlos Pronzato, sobre a revolta estudantil do Chile, para descrever quais são os planos dela e de seus colegas. “Faremos com que todos os estudantes do país se juntem para revolucionar a educação”, diz ela, sem nenhuma modéstia. Vanessa e seus colegas não têm uma pauta de reivindicações para negociar com o governo. “Queremos o fim da reorganização e o diálogo.” Quando a invasão da Fernão Dias Paes ocorreu, um grupo de estudantes arrumou projetores para exibir o documentário para todos os demais alunos. A parafernália foi montada no pátio, para que pais e professores também assistissem aos pinguins.
O uso do documentário como motivação para a mobilização estudantil não é novidade. No site do partido PSTU, há menções ao documentário em mais de uma dúzia de textos. Oficialmente, não há ligação dos manifestantes com partidos. Na prática, uma ronda nas escolas mostra que não é bem assim: um movimento como esse não se espalha com tanta rapidez sem alguma ligação ou aparelhamento por grupos políticos – em dez dias, o número de escolas ocupadas saltou de três dezenas para duas centenas. A forma como essa ligação se dá varia. Há entidades que não assumem o apoio às ocupações, mesmo quando os próprios alunos falam da ajuda que recebem. É o caso do sindicato dos professores, a Apeoesp. A instituição colocou seus advogados à disposição dos estudantes e forneceu alimentos e cobertores às escolas. O site do Mal Educados, movimento que, de acordo com os estudantes, é ligado ao PSTU, publica em sua página um manual da ocupação das escolas e exibe vídeos dos bloqueios de rua que apoia.
Há outras organizações que assumidamente apoiam os manifestantes. A União Brasileira dos Estudantes Secundaristas (Ubes) e a União Paulista dos Estudantes Secundaristas (Upes) transformaram o endereço de suas sedes em posto de coleta de alimentos e materiais de higiene para os ocupantes. As duas entidades também mobilizam advogados para prestarem atendimento aos estudantes.
As ex-secundaristas Camila Lanes, presidente da Ubes, e Angela Meyer, presidente da Upes, ambas de 19 anos, correm de uma escola a outra para ajudar no que for preciso. Camila traz para as ocupações paulistas a experiência que acumulou em seu Estado natal, o Paraná. Ela faz parte das lideranças do movimento estudantil desde 2010. Esteve nas ruas de Curitiba em 2013. “Foi incrível”, diz. Em abril deste ano, testemunhou a reação violenta da PM paranaense, a mando do governador Beto Richa (PSDB), à manifestação de professores e alunos em frente à Assembleia Legislativa. O episódio mandou mais de 200 pessoas para o hospital. Para Camila, sobrou o medo da violência policial. “Eles costumam usar a força, em vez do diálogo. Esperamos que isso mude”, diz ela.
No mesmo movimento em que há estudantes que batem tambores e conclamam seus colegas a saírem para apanhar da PM, há manifestantes de vozes calmas – e menos belicosas. É o caso de Bryan Aftimus, de 19 anos, presidente do grêmio da Escola Estadual Caetano de Campos, do bairro da Aclimação. A escola é a mais antiga do Estado, fundada em 1846 (naquele tempo, ficava na Praça da República). Bryan lidera o grêmio há cinco anos. Esteve nas manifestações de 2013 com seus colegas.
Na proposta do governo, a escola se transformaria numa unidade de ensino médio, exclusivamente. Bryan se forma neste ano (se as aulas voltarem) e começará em seu primeiro emprego um pouco antes do Natal. Trabalhará numa grande loja de móveis. “Independentemente do que ocorrerá depois desse ano de negociações, já conseguimos muita coisa.” Bryan diz que alunos que nunca deram a mínima para a escola passaram a se preocupar, depois da ocupação, com a qualidade do ensino. “Os caras que mais sujavam e até quebravam coisas agora são os que cuidam do jardim, o que não é pouco”, diz. “É a primeira vez que eles se sentem donos da escola. Eu te garanto que esses garotos serão outros estudantes depois das ocupações.” Se tiver mesmo esse efeito, a rebelião dos pinguins dos trópicos terá conseguido uma vitória ainda maior do que o recuo do governo Alckmin na reestruturação da rede escolar.

Nenhum comentário:

Postar um comentário