24 de novembro de 2017

SP pagará a entidade que cumprir meta e evitar evasão no ensino médio


Marcelo S. Camargo - 25.mai.2017/A2IMG
Estudantes durante aula na rede estadual de São Paulo
Estudantes durante aula em escola da rede estadual de São Paulo
O governo de São Paulo iniciou nesta quinta-feira (23) um processo para escolher uma proposta de melhoria da educação no Estado, em que o pagamento pelos serviços prestados pela organização vencedora dependerá do cumprimento de metas.
É a primeira vez que esse tipo de concorrência, chamado contrato de impacto social, será testado no Brasil. O objetivo do projeto, com participação do BID (Banco Interamericano de Desenvolvimento) e do Insper Metricis, é aumentar a aprovação e a conclusão no ensino médio –e a consequente queda da evasão.
"A educação está anacrônica. O jovem pressente isso e foge. Buscamos alternativas para esse fracasso", diz José Renato Nalini, secretário de Educação de São Paulo.
O projeto vencedor –que complementará outras políticas da secretaria– será iniciado no segundo semestre de 2018, no final da gestão Geraldo Alckmin (PSDB). Poderão concorrer organizações privadas ou sem fins lucrativos, sozinhas ou em consórcio.
A proposta será implementada em 61 escolas em áreas vulneráveis da região metropolitana. Os resultados dos alunos serão comparados aos de outras 61 escolas da mesma área, que também serão monitoradas, mas não receberão a intervenção.
O objetivo desse formato de avaliação de política pública é garantir que seus efeitos possam ser mensurados. A ideia é que o projeto seja adotado em toda a rede estadual caso seja bem sucedido.
A principal meta que deverá ser atingida pelo vencedor é um avanço de sete pontos percentuais na taxa de conclusão do ensino médio nas escolas do projeto em relação às que ficarem de fora, após um período de três anos.
Hoje, esse indicador é de apenas 59,2%, em média, no conjunto das 122 escolas, ante 73,8% em todo o Estado.
Se a taxa subir três pontos percentuais nas instituições que serão apenas monitoradas, será necessário um aumento de dez pontos percentuais nas escolas que tiverem recebido a intervenção.
O contrato exigirá ainda um aumento de cinco pontos percentuais no índice de aprovação nas escolas participantes tanto após o primeiro quanto o segundo ano, também em comparação ao possível avanço nas demais. A aprendizagem também será medida e não poderá cair.
Sem o cumprimento das metas, o vencedor não recebe. Pelo modelo, o setor público busca inovação, mas transfere o risco para um parceiro: "O objetivo é que as organizações tenham incentivo para buscar iniciativas que realmente causem impacto", diz Sérgio Lazzarini, coordenador do Insper Metricis.
O edital do processo está aberto para consulta pública no site da secretaria. Encerrada a etapa, em 12 de dezembro, o texto poderá passar por ajustes e, em seguida, as propostas poderão ser recebidas.
O vencedor será o que apresentar o lance mais baixo em relação a um teto de R$ 17,8 milhões pelo total do projeto. O pagamento ocorrerá em três etapas. Além do preço, há outras exigências.
Uma delas é que o grupo já tenha prestado serviços envolvendo um mínimo de 5.400 alunos. A proposta deverá contemplar ainda três eixos de ações escolhidos após um mapeamento das fragilidades do ensino no Estado feito pelo Insper Metricis.
O primeiro deles é garantir maior envolvimento das famílias na vida escolar dos filhos. O segundo é a adoção de mecanismos para motivar o aluno. O terceiro é a apresentação de ferramentas para melhorar a gestão escolar. 


23 de novembro de 2017

O que pensa quem não quer discutir gênero

Nova Escola, 21/11/2017

Pesquisa com manifestantes contrários à filósofa Judith Butler revela ideias equivocadas sobre o tratamento do tema nas escolas
Salvar
Por: Rodrigo Ratier
Parada LGBT em Montreal, Canadá (Getty Images)
“Menino nasce menino”, “menina nasce menina”, “xô, Judith” – e, claro, “não à ideologia de gênero”. Com mensagens desse teor, um grupo de manifestantes recepcionou a filósofa americana Judith Butler num evento em São Paulo. A palestra – que nem era sobre gênero, mas sobre democracia – ocorreu em 6 de novembro e o assunto vem rendendo desde então. A professora da Universidade da Califórnia, nos Estados Unidos, é uma referência no estudo de gênero e sexualidade, e sua viagem ao Brasil inflamou as redes sociais. Cerca de 320 mil pessoas assinaram uma petição virtual criticando sua presença e algo em torno de uma centena se mobilizaram para protestar, de carne e osso, na frente do Sesc Pompéia. Outro grupo a hostilizou pessoalmente no aeroporto de Congonhas.
Uma coisa são xingamentos, hashtags e os cartazes. Mas, para além das palavras de ordem, o que pensam essas pessoas sobre Educação? Um levantamento da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (FespSP) esboça algumas respostas. A equipe de pesquisa, coordenada pela antropóloga Isabela Oliveira Pereira da Silva, aplicou 93 questionários e fez 31 entrevistas qualitativas com manifestantes que compareceram ao evento – tanto para criticar quanto para defender a filósofa americana.
Os resultados apontam dois extremos opostos em quase tudo. Do lado dos favoráveis a Judith Butler, um grupo que se autodefine em termos partidários como de esquerda (71%) e, em termos político-morais, como libertário (43%) ou progressista (29%). Nos contrários à filósofa, uma maioria que se considera de direita (60%) e conservadora (81%). Os defensores eram mais jovens e escolarizados: 52% entre 18 e 34 anos e 60% com ensino superior ou pós graduação – um perfil compatível com o evento, de natureza acadêmica. Entre os críticos, predomínio da faixa de 35 a 54 anos (41%) e de diplomas do Ensino Médio (45%, entre cursos completos e incompletos).
Casais héteros, intervenção militar e Bolsonaro
“O levantamento foi feito com um grupo reduzido e num contexto muito específico, em que a polarização era esperada. Não é um retrato do Brasil”, esclarece a antropóloga Isabela, coordenadora do estudo. De fato, pesquisas como a do instituto Ideia Big Data mostram que as posições dos brasileiros são bem menos conservadoras do que se pensa. E a sondagem do Ibope indica que 84% dos brasileiros apoiam discutir gênero nas escolas. A força da pesquisa é jogar luz sobre as ideias dos grupos conservadores. Algumas pistas que a pesquisa coletou:
Entre os contrários a Judith Butler...
...90% acham que toda família deve ser composta por um casal de homem e mulher… 65% concordam que a religião é fundamental na formação do caráter… 51% defendem que casais gays ou transexuais não podem criam filhos… 84% querem a redução da maioridade penal… 41% pensam que uma intervenção militar poderia ajudar o Brasil… 63% pretende votar em Jair Bolsonaro nas eleições do ano que vem
“Os conservadores organizados são a novidade política mais recente. Vêm inclusive ganhando espaço na discussão sobre Educação”, diz a antropóloga.
Judith Butler em palestra na Universidade de Yale, Estados Unidos (Reprodução)
Ideias que não existem na escola
Na opinião de Isabela, a questão de gênero é a porta de entrada para que grupos conservadores passem a discutir o papel da escola de forma mais ampla. O resumo das opiniões está na ilustração que fecha essa reportagem: só 2% acha que é preciso falar de gênero nas escolas e apenas 3% pensam que sexualidade deve estar no currículo (para 97%, isso é assunto da família). A questão de gênero, vista como “ideologia” – com toda a carga negativa que a palavra carrega –, é um risco para crianças, segundo 92% do grupo. Não surpreende, por fim, que 86% apoiem o Escola Sem Partido.
Outros achados vêm das respostas qualitativas. Quando os críticos fazem cartazes do tipo “não à ideologia de gênero”, o que querem dizer? A equipe de Isabela fez essa pergunta aos manifestantes. E uma amostra das respostas – ainda em análise, antecipadas com exclusividade para NOVA ESCOLA – é a seguinte:
- “A ideologia de gênero transmite conceitos totalmente contrários à biologia e à ordem natural das coisas.”- “O perigo é deixar as crianças acharem essas escolhas normais e aceitarem que podem decidir sobre isso.”- “Eles [defensores da teoria de gênero] querem tirar a autoridade dos pais.”- “Querem acabar com a família tradicional e passar a ideia de que a homossexualidade é cool, moderna e que a maioria é homossexual. Isso não é verdade.”
“Para os opositores, a ideia geral é que ideologia de gênero significa ensinar as crianças a ser gays”, afirma Isabela. “Não existe uma aula desse tipo. Nunca ninguém fez algo parecido com isso.”
A própria Judith Butler endossa a tese de desconhecimento. “Desde o começo, a oposição à minha presença no Brasil esteve envolta em uma fantasia”, escreveu ela em artigo publicado na Folha de S. Paulo. Classificando os comentários como “ficção interessante e nociva que deixou muita gente alarmada”, Judith defende que a teoria de gênero não é ideologia. “Em geral, uma ideologia é entendida como um ponto de vista que é tanto ilusório quanto dogmático, algo que ‘tomou conta’ do pensamento das pessoas de uma maneira acrítica. Meu ponto de vista, entretanto, é crítico, pois questiona o tipo de premissa que as pessoas adotam como certas em seu cotidiano.”
Diz a filósofa que o objetivo da teoria, expressa no livro Problemas de Gênero: Feminismo e Subversão da Identidade, é “gerar mais liberdade e aceitação para a ampla gama de identificações de gênero e desejos que constitui nossa complexidade como seres humanos”. Para Judith, o conceito de gênero – ou seja, as ideias que possuímos sobre o que é ser homem ou mulher – variam conforme a cultura e assumem diferentes formas ao longo da história.
“Como atores históricos, nós temos alguma liberdade para determinar esses significados”, afirma. “Quantos de nós ainda acreditamos que o sexo biológico determina os papéis sociais que devemos desempenhar? Quantos de nós ainda sustentamos que os significados de masculino e feminino são determinados pelas instituições da família heterossexual e da ideia de nação que impõe uma noção conjugal do casamento e da família? Famílias queers e travestis adotam outras formas de convívio íntimo, afinidade e apoio. Mães solteiras têm lados de afinidades diferentes. A mesma coisa se dá com famílias mistas, nas quais as pessoas se casam novamente ou se juntam com famílias, criando amálgamas muito diferentes daqueles vistos em estruturas familiares tradicionais.”    
O que a Educação pode fazer
Para Isabela, o temor às ideias de Judith Butler tem explicação. A antropóloga diz que o termo “ideologia de gênero” virou uma categoria de acusação. “Nesse sentido, quando os pais pensam que a proposta da escola não vai ser boa para as crianças, é compreensível que protestem. Todos querem o melhor para seus filhos.”
Lidar com esse tipo de mal entendido é desafiante, mas também uma oportunidade. Na opinião de Isabela, o contato de professores e gestores com famílias que se oponham a discussões de gênero em sala é a melhor forma de avançar a discussão. O diálogo e o detalhamento da proposta pedagógica são as ferramentas essenciais. “Os educadores podem criar caminhos para que as pessoas fiquem mais informadas a respeito dos estudos da área e vejam que não se trata de ideologia. Por enquanto, a discussão se baseia muito no medo das pessoas comuns. A escola pode ajudar a mudar isso”, finaliza.
Infográfico: Rafael Castro / Nova Escola

Harvard é investigada por preterir asiáticos em favor de negros e latinos


O Departamento de Justiça dos EUA investiga a Universidade Harvard, uma das mais prestigiadas do mundo, por preterir estudantes de origem asiática em sua seleção em favor de negros e latinos.
Em ofícios enviados à universidade nesta semana e revelados pelo "Wall Street Journal", o órgão cita a Lei dos Direitos Civis, que proíbe "discriminação com base em raça, cor e origem em programas e atividades que recebam financiamento federal", e pede os documentos de seleção.
Jessica Rinaldi - 16.nov.2012/Reuters
Camisetas da Universidade Harvard são vendidas em seu campus em Cambridge, na região de Boston
Camisetas da Universidade Harvard são vendidas em seu campus em Cambridge, na região de Boston
Hoje, quase 40 mil estudantes disputam a cada semestre uma vaga na universidade, que seleciona 2.000.
Na turma mais recente, metade dos alunos escolhidos era branca, e a outra metade, formada por asiáticos (22%), negros (14%), latinos (11%) e indígenas (1,9%).
Mas, segundo uma associação de estudantes, o total de alunos de origem asiática seria maior se não fossem práticas de equilíbrio racial adotadas por Harvard.
A Students for Fair Admissions (SFA, estudantes pela admissão justa) já moveu ações judiciais contra três universidades, alegando que estudantes asiáticos com excepcional desempenho acadêmico estão sendo preteridos por causa de sua etnia.
É sobre esses casos que o Departamento de Justiça se debruça desde agosto.
No caso de Harvard, o total de concorrentes asiáticos teria dobrado nos últimos 20 anos, mas o percentual selecionado se manteve igual.
A universidade não confirma essa informação. Estatísticas mostram que tanto o percentual de estudantes asiáticos quanto o de negros e latinos aumentaram no período, embora em proporções diferentes. Vinte anos atrás, 16% dos alunos de Harvard eram de origem asiática, 9% eram negros, 8,5% eram latinos e 0,8% eram indígenas.
DIVERSIDADE
A lei americana hoje veta cotas raciais. Mas algumas instituições adotam ações afirmativas: Harvard, por exemplo, já disse que está comprometida em formar "turmas diversificadas" e que seus estudantes precisam ter a capacidade de "trabalhar com pessoas de diferentes formações, experiências de vida e perspectivas".
"Já basta. As universidades americanas devem julgar os alunos com base em seu caráter e conteúdo, e não pela cor de sua pele", diz Edward Blum, presidente da SFA.
Segundo ele, Harvard passou a adotar a seleção "holística" de estudantes, com critérios que vão além do desempenho acadêmico, na década de 1920, quando o número de estudantes judeus estava em ascensão. Para Blum, o processo aplicado hoje, que limita a entrada de asiáticos, segue os mesmos princípios.
A Universidade Harvard afirma que seu processo de seleção é "coerente com as normas legais estabelecidas pela Suprema Corte" e nega haver discriminação.
Outras organizações alegam que a investigação aberta pelo governo de Donald Trump é um ataque a políticas afirmativas. "[Dizer que isso prejudica asiáticos] é uma mentira absoluta", disse a advogada Kristen Clarke, do Comitê de Advogados pelos Direitos Civis. Para ela, os dados não demonstram discriminação, e esse tipo de seleção permite construir um ambiente acadêmico diversificado, que "prepara os alunos como cidadãos globais".
Não se sabe se outras universidades estão sob investigação. Oficialmente, o Departamento de Justiça informou à Folha que não comenta investigações em andamento, mas que "encara com seriedade qualquer potencial violação aos direitos civis e constitucionais do indivíduo".
Em nota, Harvard afirma que está disposta a colaborar com a investigação, mas que tem a "obrigação de proteger a confidencialidade" de seus estudantes e, por isso, vem buscando "a melhor forma" de fornecer os documentos. 

Estado da desigualdade, Banco Mundial


EDITORIAL

Lalo de Almeida/Folhapress
ORG XMIT: 145001_1.tif Idosos aguardam atendimento em agência do INSS, no centro de São Paulo (SP). (São Paulo, SP, 27.01.2009. Foto de Lalo de Almeida/Folhapress)
Idosos aguardam atendimento em agência do INSS no centro de São Paulo (SP)
Foi oportuna a divulgação, na terça-feira (21), de estudo do Banco Mundial a respeito da eficiência e da equidade do gasto público no Brasil —ou, mais precisamente, da escassez de ambas.
Apresentam-se às claras conclusões que, no mais das vezes, acabam encobertas por mistificações do debate político. Ademais, o trabalho atende a encomenda de Joaquim Levy, ex-ministro da Fazenda do governo Dilma Rousseff (PT), o que permite recordar que as preocupações reformistas antecedem o impeachment da ex-presidente.
Em suma, aponta-se que o setor público brasileiro gasta muito e gasta mal. Se tal diagnóstico não prima pela originalidade, a descrição do quadro tem os méritos do didatismo e da amplitude.
Da arrecadação de impostos ao destino dos gastos, o Orçamento contribui para perpetuar a já extrema desigualdade socioeconômica —enquanto o gigantismo estatal costuma ser justificado pela necessidade de reduzir a distância entre ricos e pobres.
No caso da Previdência, principal item da despesa, a distorção é evidente. Cerca de 35% dos subsídios (a diferença entre contribuições e benefícios) se direcionam aos 20% mais abonados.
Especialmente assimétricas se mostram as regras de aposentadoria dos servidores públicos, em sua maioria pertencentes aos estratos de renda mais alta —e que recebem, do restante da população, uma transferência estimada em 2% do Produto Interno Bruto.
Mudanças em tais normas e maior tributação dos benefícios mais elevados, sobretudo no Legislativo e no Judiciário, estão entre as medidas recomendadas.
Também se destacam os salários da máquina pública: no funcionalismo federal, eles superam em 67% os do setor privado, em média, mesmo depois de considerados nível educacional, idade e experiência. É a maior discrepância numa amostra de 53 países.
O Banco Mundial estima que a redução desse diferencial à metade (o que seria possível com congelamento de salários mais altos nos próximos anos, entre outas medidas) pouparia o equivalente a 0,9% do PIB, quase a metade do ganho esperado com a reforma da Previdência em dez anos.
O texto traz ainda sugestões para redirecionar a carga tributária de forma que se transfira ônus maior aos mais ricos, uma ideia negligenciada no Brasil.
Redefinir com convicção a ação do Estado para reduzir a desigualdade e, ao mesmo tempo, recuperar o equilíbrio orçamentário demandam reformas de grande alcance. Como fazê-lo é o desafio político fundamental que precisará ser vencido nos próximos anos.

22 de novembro de 2017

Gestão Temer barra artigo científico e provoca crise com pesquisadores


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O Inep, ligado ao Ministério da Educação do governo Michel Temer (PMDB), barrou a exposição de um artigo científico que, mesmo tendo sido avalizado tecnicamente pelo comitê editorial, desagradou a direção do instituto.
A decisão abriu uma crise com pesquisadores, que falam em "censura" ao trabalho acadêmico e científico.
O artigo havia sido publicado no site do Inep (Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais) na sexta-feira (18), mas logo no sábado (19) acabou suprimido.
Edson Silva -27.mar.2013/Folhapress
SERTAOZINHO, SP, BRASIL, 27-03-2013: Alunos do 9º ano em aula de matematica da Emef Jose Negri, em Sertaozinho (SP), a melhor nota em matematica do Estado. Escola municipal em Sertaozinho tem a melhor nota de matematica do Estado na Prova Brasil. ( Foto: Edson Silva/Folhapress) ***COTIDIANO***EXCLUSIVO*** *** Local Caption ***
Escola Jose Negri, em Sertãozinho (SP),que teve bom desempenho no Inep
O texto integra uma série de publicações com critérios científicos e comitê editorial próprio. Com 56 páginas, trata de proposta do novo Sistema Nacional de Avaliação da Educação Básica (Sinaeb), cuja criação é prevista no Plano Nacional de Educação (PNE).
Em maio de 2016, ainda no governo Dilma Rousseff (PT), portaria do ministério com a criação do Sinaeb previa a ampliação do sistema de avaliação da educação básica. Ela foi revogada em setembro do ano passado, já com a equipe do atual ministro da Educação, Mendonça Filho (DEM).
A presidente do Inep, Maria Inês Fini, que já havia se posicionado contrária ao previsto no Sinaeb, foi quem decidiu pela retirada do artigo científico do site. O Inep diz que vai reavaliar se ele passou pelos "trâmites formais".
O texto retirado do ar havia sido submetido ao periódico científico "PNE em Movimento", iniciativa do Inep para produzir estudos sobre as metas do plano de educação e que já tem seis números.
Não se trata de publicação institucional do Inep, e os artigos são sempre assinados.
O texto "Sistema Nacional de Avaliação da Educação Básica (Sinaeb): Proposta para atender ao disposto no Plano Nacional de Educação" havia sido entregue para análise em abril deste ano. Ele é assinado por três funcionários do Inep: Alexandre André dos Santos, João Luiz Horta Neto e Rogério Diniz Junqueira.
Pelo trâmite previsto, e que segue as premissas de publicações científicas, ele foi analisado por um consultor e depois pelo comitê editorial da publicação, segundo mensagem da editora do periódico, Elenita Rodrigues, do Inep.
"Caso seja do entendimento desta gestão que, no atual contexto político do Inep, a série ['PNE em Movimento'], como foi concebida, não deve mais publicar artigos sem avaliação direta da gestão, minha sugestão é a de que seja retirada dela a premissa de se tratar de publicação científica", afirma a mensagem de Rodrigues encaminhada para membros do Inep e a qual a Folha teve acesso.
Na carta, Rodrigues colocou seu cargo à disposição. "É inadmissível qualquer decisão de a gestão controlar publicações aprovadas por comitê editorial e, neste cenário, manifesto desejo de afastamento destas editorias." Ela não quis dar entrevista, mas diz que todas as normas foram seguidas. Luiz Horta e André Santos também preferiram não dar entrevista. Rogério Junqueira não foi localizado.
CENSURA
A retirada do artigo repercutiu no meio acadêmico.
Andrea Gouveia, presidente da Anped (Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Educação) considerou a decisão do Inep "uma censura" que vai "contra a história de um instituto de estudos e pesquisas".
"Calar a possibilidade de ter um registro histórico da produção de um pesquisador é muito ruim. Mesmo que se discorde, não há motivo para proibir uma publicação", completa Gouveia.
Reprodução
Capa da revista "PNE em Movimento", do Inep, que foi tirada do ar. Credito: Reprodução DIREITOS RESERVADOS. NÃO PUBLICAR SEM AUTORIZAÇÃO DO DETENTOR DOS DIREITOS AUTORAIS E DE IMAGEM
Capa da revista científica "PNE em Movimento", do Inep, onde o artigo barrado havia sido publicada
Docente na Faculdade de Educação da USP, Sandra Zakia diz que "a censura é surpreendente e inaceitável".
"Foi uma medida autoritária por parte da direção do Inep, desrespeitando uma decisão do conselho editorial."
Zakia e membros da Anped participaram das discussões que antecederam a portaria inicial do Sinaeb. A proposta do novo sistema inclui novas dimensões de avaliação da educação básica, além do Ideb (Índice de Desenvolvimento da Educação Básica).
Pela proposta, valorização dos profissionais e superação das desigualdades seriam pontos também analisados na avaliação. O artigo traz um histórico das avaliações educacionais do Inep, além de reflexão acerca de concepções de qualidade educacional.
OUTRO LADO
O Inep informou que o artigo foi retirado do ar para analisar se houve um correto atendimento dos trâmites formais da publicação.
Segundo o órgão, o texto não seria inédito por ter feito parte de subsídio apresentado, em 2016, junto com a portaria do Sinaeb. O mesmo conteúdo havia sido apresentado e rejeitado em outra publicação do Inep, no ano passado.
Após essa primeira recusa, os autores ressaltaram em um documento levado ao Inep que toda a discussão anterior não configura a quebra de ineditismo, uma vez que o conteúdo nunca sai em periódico.
Para o Inep, o fato de a portaria do Sinaeb ter sido revogada é também motivo para sua exclusão –mesmo que a publicação seja de caráter científico. O instituto ainda afirma que o texto não teria passado por aprovação colegiada do comitê editorial.
Consultada após a resposta do Inep, a editora da série, Elenita Rodrigues, disse que o artigo foi revisado no processo de análise e que as normas da publicação não exigem análise colegiada.
O PNE foi aprovado em 2014 e estipula metas para a educação no prazo de dez anos. O desenho de sistema de avaliação da educação básica está entre as metas de prazo parcial e já deveria estar pronto. 


Universidades doentes


Bruno Santos - 12.fev.2017/Folhapress
SAO PAULO, SP, BRASIL, 12-09-2017: Obras paradas na Universidade de Sao Paulo (USP). Na foto, obra parada do Centro de Convencoes da USP. (Foto: Bruno Santos/ Folhapress) *** FSP-ESPECIAIS *** EXCLUSIVO FOLHA***
Obra parada do Centro de Convenções da USP

A crise orçamentária nas universidades estaduais paulistas segue sem solução definitiva à vista. Um sintoma agudo disso manifestou-se nesta terça-feira (21): o Hospital Universitário da USP fechou as portas do pronto-socorro infantil.
Instituição de referência em saúde pública na zona oeste da capital, cuidará agora apenas dos casos pediátricos emergenciais anteriormente encaminhados por postos de atendimento. Para agravar o quadro, alunos de medicina da USP entraram em greve, pela primeira vez desde os anos 1970.
A carência de verbas impede contratações para cobrir as vagas de quem se aposenta. Tanto ensino quanto pesquisa e serviços sofrem com a falta de pessoal. Tal panorama não se alterará pelo menos até o final de 2018.
Pelo quinto exercício seguido, a USP deverá ter deficit em seu orçamento no ano que vem. Segundo projeções em debate no seu Conselho Universitário, faltarão quase R$ 288 milhões para fechar as contas, valor que a reitoria terá de retirar de sua reserva financeira.
Tal fundo, que deveria custear investimentos, já teve saldo de R$ 3 bilhões. Com o novo saque, o montante deve se aproximar de zero.
A principal fonte de financiamento da USP, da Unicamp e da Unesp são repasses de 9,57% da arrecadação do ICMS —estimados em cerca de R$ 10 bilhões em 2018.
Não só a USP passa por um sufoco orçamentário. A queda no recolhimento tributário, fruto da crise econômica que assola o país, aliada a um histórico de administrações imprudentes, deixou as universidades paulistas na penúria.
Em entrevista à Folha, o reitor da Unesp, Sandro Roberto Valentini, informou que sua gestão precisa de no mínimo R$ 170 milhões do governo estadual para pagar o 13º salário de 12.703 servidores.
O peso da folha salarial, de resto, há muito torna insustentável a situação das universidades. Nenhuma organização pode gozar de saúde financeira comprometendo cerca de 100% do orçamento com desembolsos de proventos.
A USP vem realizando um esforço de austeridade, com o qual já se comprometeu seu reitor recém-nomeado, Vahan Agopyan. O estamento universitário precisa, porém, reagir de modo mais corajoso à falta atual de perspectivas.
Não bastam programas de demissões voluntárias e suspensão de contratações. Isso é só o óbvio.
Há que ir mais longe e liderar um debate sério sobre fontes alternativas de receita. Por exemplo, cobrar mensalidades de quem possa pagar —um tema que muitos na comunidade ainda consideram tabu.

Outra forma de escravidão, Cristovam Buarque

JORNAL CORREIO BRAZILIENSE, EM 21/11/2017
 


Senador pelo PPS-DF e professor emérito da Universidade de Brasília (UnB)
Em uma entrevista publicada em outubro de 2012, o jogador brasileiro de futebol Raí falou com satisfação que, durante
 o tempo em que jogou no Paris Saint Germain, na França, a filha dele frequentava a mesma escola de altíssima
qualidade que a filha da empregada. Naquela ocasião, Raí se perguntou se não seria possível, aqui também, o filho do
trabalhador estudar na mesma escola que o filho do patrão. E mais: o que devemos fazer para que essa se torne a
realidade no nosso país, como ocorre na França e em outros lugares do mundo em que a economia cresce com plena
 estabilidade social? Por que ainda não fomos capazes de fazer isso?
O futuro de cada país decorre da formação de seus cidadãos, da capacidade de usar o potencial de seus cérebros. No
 Brasil, não haverá futuro se continuarmos a desprezar a formação intelectual de nossas crianças até a idade adulta. Não é difícil supor o que pode acontecer: mais uma vez ficaremos para trás entre os maiores países, como ocorreu há alguns séculos, quando insistimos no
absurdo da escravidão, mantendo a desigualdade e impedindo o país de usar o potencial do trabalho livre de cada
 brasileiro por mais de trezentos e cinquenta anos.
Dos mais de 3 milhões de brasileiros que nasceram em 1995, todos agora com 22 anos, no máximo mil estão
caminhando para se tornarem bons cientistas, filósofos, escritores, em nível internacional. E desses, uma boa parte
está emigrando para desenvolver a ciência e a tecnologia em outros países.
Sem educação de qualidade para todos, não teremos o futuro de produtividade na economia que permita a necessária
riqueza para sair da pobreza nem o potencial de inovação capaz de dar ao Brasil a competitividade necessária para
enfrentar a globalização. Sem educação com a mesma qualidade para todos, desperdiçaremos cérebros e mantendo a
vergonha da desigualdade social que nos caracteriza, desde os tempos da escravidão, pela cor da pele, e agora a
escravidão pela ausência de educação.
Para fazer a educação ser de alta qualidade e igual para todos, basta uma carreira nacional do magistério
suficientemente bem remunerada para atrair os melhores jovens para esse trabalho, exigindo deles dedicação exclusiva
e avaliação de desempenho. Esses professores e seus alunos devem dispor de escolas com belos e confortáveis prédios,
 os mais novos equipamentos culturais, esportivos e tecnológicos, com horário integral em todas elas. É possível que isso ocorra aqui tanto quanto foi possível na França, tal como Raí foi testemunha.
O Brasil está amarrado na falta de educação para todos e isso decorre da falta de indignação com nosso atraso
educacional em relação a outros países e com a desigualdade na oferta de vagas às nossas crianças, conforme a renda
de suas famílias. Ainda não nos desamarramos porque não valorizamos o conhecimento. Preferimos a produção e a
renda, sem percebermos que a verdadeira riqueza depende do conhecimento. Não olhamos para frente, em sintonia
com o “espírito do tempo” — demoramos a fazer a abolição da escravatura e agora demoramos a entender que negar a
educação é a forma de escravizar quem não a recebe e de atrasar toda a nação, que sofre as consequências por não
aplicar o conhecimento.
Por isso, mantivemos a escravidão por quase 70 anos, depois da independência, e estamos há mais de 100, desde a
República, sem fazermos o que precisamos para ter uma educação boa para todos, como Raí viu na França.